Contexto Histórico:
As
viagens quatrocentistas de descobrimento e exploração
da costa ocidental africana e do Atlântico a sul do Bojador demonstraram
a importância da localização geográfica do
arquipélago dos Açores. A corrente das Canárias
e os alísios de Nordeste impediam que, na torna viagem, se seguisse
uma rota ao longo da costa e mesmo no regresso da Madeira era preciso
navegar à bolina, contra o vento, para contornar esses obstáculos,
como já referia Diogo Gomes para meados do século XV.
Deste modo, a chamada volta da Guiné (ou da Mina, como foi conhecida
depois), penetrando no oceano e contornando, em arco, o alisado de Nordeste,
começou a ser praticada antes de findar a primeira metade da
centúria, implicando que os navios passassem ao largo ou escalassem
as ilhas açorianas, que se tornaram assim um importante apoio
à navegação.
Foram,
contudo, as viagens de Cristóvão Colombo e de Vasco
da Gama que consagraram os Açores como escala definitiva e
fundamental no contexto das rotas atlânticas. A viagem de Vasco
da Gama, a primeira a unir Portugal à Índia por mar
e a desenhar, nos traços essenciais, o itinerário da
futura rota do Cabo, definiu a importância da ilha Terceira
e, em especial, de Angra enquanto escala vital de retorno na rede
de rotas portuguesas. Nos primeiros anos do século XVI, as
viagens da carreira da Índia consagraram os Açores como
ponto de referência e Angra, pelas condições naturais
e segurança do seu ancoradouro, como escala definitiva.

Para
além da função de escala que desempenhava o porto
de Angra, as ilhas constituíam também um referencial geográfico
essencial em termos de orientação. De um modo geral, era
pela latitude das Flores e do Corvo que os navios rumavam a Leste e
de tal modo era importante a sua localização que, segundo
escreveu Damião de Góis, a pequena ilha do Corvo era conhecida
entre os navegantes como a "ilha do marco", sendo por ela
que aqueles se orientavam, ao demandarem, no retorno, os portos insulanos.
Por tudo isto, não é de estranhar que, nos roteiros quinhentistas,
os Açores ocupassem um lugar de destaque.
No
primeiro roteiro da carreira da Índia, de cerca de 1577 e da
autoria de Vicente Rodrigues, a ilha das Flores aparece como referência
para os pilotos e em roteiros mais tardios Flores e Corvo continuarão
a figurar como elemento essencial ao governo dos navios que pretendiam
aproar à ilha Terceira. Esta surgia, na celebrada expressão
do cronista micaelense Gaspar Frutuoso (1522 1591), como a "universal
escala do mar do ponente".
Foi
o reconhecimento da importância da escala insular e do papel que,
nesta, detinha a baía de Angra, que conduziu a coroa portuguesa
a tomar uma série de medidas que confirmaram a posição
charneira das ilhas açorianas. Durante o reinado de D. Manuel,
foi criada a armada das ilhas, para fornecer protecção
às armadas que tocassem o arquipélago, e foram publicados
o “Regimento para as naos da India nos Açores” e
o dos juízes das alfândegas (ou juízes do mar),
ambos em 1520; já com D. João III, cerca de 1527, foi
criado o ofício de provedor das armadas, com sede em Angra e
que ficou nas mãos da família Canto até à
extinção da provedoria.
O
provedor das armadas devia, antes de mais, assegurar a existência
de um sistema de vigia que permitisse detectar a aproximação
das naus da Índia, de forma a protegê las da eventual presença
de corsários, tomando as medidas necessárias à
aguada e abastecimento das armadas. A montagem deste sistema implicava
uma articulação de esforços entre o provedor e
demais autoridades sediadas na ilha Terceira, por um lado, e os poderes
localizados nas restantes ilhas dos grupos central e ocidental, por
outro. Especial atenção era tida relativamente à
comunicação com as “justiças” do Corvo,
isto é, as autoridades locais, que tinham a seu cargo a missão
de, uma vez avistadas as naus, lhes mandarem aviso para singrarem sem
demora para Angra. A acção do provedor, no tocante à
defesa das naus, era coadjuvada pela presença, nas águas
açorianas, da chamada armada das ilhas, que, composta por um
número variável de navios, saía anualmente de Lisboa,
rumava primeiramente às Berlengas e daí seguia para a
ilha Terceira. Aqui, o capitão mor da armada tomava conhecimento
de qualquer notícia referente a corsários e, de seguida,
a armada dirigia se para a ilha do Corvo, na proximidade da qual ficava
durante cerca de quatro meses. O seu regresso a Lisboa só teria
lugar quando chegasse a última nau da carreira da Índia
desse ano.