Enquadramento
Legal:
Os sítios arqueológicos subaquáticos a
intervir no âmbito do projecto PIAS estão incluídos
no Parque Arqueológico da baía de Angra do Heroísmo,
criado pelo Governo Regional dos Açores, entidade que tutela
o património da região (Decreto Regulamentar Regional
n.º20/2005/A de 12 de Outubro). As actividades a desenvolver enquadram-se
por isso nas propostas de protecção e gestão onde
é considerada importante a salvaguarda e o estudo do património
arqueológico subaquático, a divulgação de
um turismo cultural associado e a promoção do conhecimento
da história dos Açores. Como consequência, o estudo
proposto pretende contribuir para uma melhor gestão do património
da baía de Angra ao fornecer à Região Autónoma
dos Açores os elementos necessários para uma avaliação
das medidas de monitorização, preservação
e valorização turística a implementar futuramente
nestes vestígios.
O
projecto é promovido pelo Centro de História de Além-Mar
(CHAM), unidade de investigação da Faculdade de Ciências
Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e financiado pela
Direcção Regional da Cultura dos Açores (DRC).
Antecedentes
A
apresentação deste projecto vem na sequência de
diversas descobertas arqueológicas subaquáticas realizadas
na baía de Angra do Heroísmo, que documentam a utilização
do porto da cidade entre os séculos XVI e XIX por navios provenientes
da Europa e territórios ultramarinos.
Um
conjunto de âncoras situado a Este do Monte Brasil, conhecido
desde o início do mergulho com escafandro autónomo,
corresponde a um dos antigos fundeadouros da cidade. Na década
de 1960 foi recuperada uma colecção de artilharia
em bronze na baía do Fanal, actualmente depositada no Museu
de Angra, tal como acontece com algumas peças cerâmicas
e numerosas peças de artilharia em ferro recuperadas no interior
da baía.
A
investigação de vestígios de naufrágio
foi contudo iniciada apenas a partir de 1996, quando uma equipa
do Institute of Nautical Archaeology (INA) e dos Amigos do Museu
de Angra fez os primeiros levantamentos nos sítios Angra
A e Angra B e desenvolveu trabalhos de prospecção
remota em frente à cidade.~
Em
1998, no âmbito da mitigação de impactes das
obras de construção da marina de Angra do Heroísmo,
foram localizados vestígios de outros dois navios (Angra
C e D), escavados posteriormente e depositados a Este do Monte Brasil
onde se encontram na actualidade.
As
descobertas continuaram nos anos seguintes e em 2001 mergulhadores
locais declararam os naufrágios Angra E e F, alvo nesse ano
de uma missão de verificação promovida pela DRC.
Mais recentemente, em 2004, a DRC deu início a um programa
de carta arqueológica dos Açores, no âmbito do
qual, entre numerosos vestígios dispersos, foram identificados
os naufrágios Angra G e H.
Na
sequência destas descobertas, o Governo Regional dos Açores
decretou em 2005 a baía de Angra como Parque Arqueológico
Subaquático, iniciativa que tem como objectivos divulgar,
sensibilizar e valorizar o património cultural subaquático
regional.
No
âmbito do projecto PIAS prevê-se a intervir nos sítios
de naufrágio Angra A, Angra B, Angra E e Angra F e estudar
as estruturas do navio Angra D.
Os
vestígios de Angra A situam-se no interior da baía,
próximo do Porto Novo, aproximadamente a cerca de 5 ou 7
m de profundidade. No sítio foi identificada uma mancha de
lastro com cerca de 35 m de comprimento por 11 de largura. Em 1996,
foi alvo de uma missão de registo preliminar promovida pelo
INA e a DRC. As características arquitecturais da embarcação
analisadas parecem indicar tratar-se de um navio do século
XIX.

Angra
B foi localizado junto ao cais da Figueirinha, submerso a cerca
de 5 metros de profundidade. O sítio corresponde a um tumulus
de lastro onde se pode observar parte da estrutura do navio, balizas
e tabuado. Em 1996, foi alvo de uma missão de registo e avaliação
preliminar promovida pelo INA e a DRC que permitiu verificar tratar-se
possivelmente de um navio ibérico dos séculos XVI
ou XVII

O
sítio Angra D encontrava-se a cerca de 50 m da costa, defronte
da cidade, numa área com uma profundidade de cerca de 7 m.
Foi escavado em 1998 no âmbito da mitigação
de impactes arqueológicos promovidas no contexto das obras
de construção da marina de Angra do Heroísmo.
A embarcação encontrava-se preservada numa mancha
com 35 metros de comprimento máximo e 7 de largura máxima
(na zona da proa do navio) e, após escavação,
foi desmontada e depositada numa área protegida da baía.
Durante a escavação foi ainda localizada uma colecção
diversificada de materiais arqueológicos, relacionados com
diversas actividades a bordo e com o funcionamento do navio. A análise
preliminar da estrutura permitiu estabelecer paralelos entre os
métodos utilizados na sua construção e na de
outros navios de origem Ibérica dos séculos XVI e
XVII, procedência cultural que parece ser confirmada por outros
vestígios: anforetas e cerâmicas finas, fabricadas
no sul de Espanha, e mercúrio, metal largamente utilizado
nas minas americanas a partir de meados do século XVI na
extracção da prata. No âmbito deste projecto
pretende-se dar continuidade ao estudo da estrutura do navio através
do registo e análise dos elementos depositados no interior
da baía e reanálise da documentação
disponível.
Os
sítios Angra E e F foram declarados em 2000 por mergulhadores
locais. Em Angra E uma missão de verificação
efectuada pela DRC permitiu observar três núcleos com
madeiras. Foi recuperado um caldeirão em bronze, um cabo de
faca em osso e alguns fragmentos cerâmicos. Em Angra F foram
descobertos vestígios de um navio construído em madeira
de cronologia e origem indeterminadas protegido sob um tumulus de
lastro.
Bibliografia
Crisman, K. (1999b), Angra B: the lead-sheathed wreck at Porto Novo
(Angra do Heroísmo, Terceira island, Azores, Portugal). Revista
Portuguesa de Arqueologia volume 2. número 1, pp. 255-262.
Crisman, K. e Jordan, B.(1999a) – “Angra A: the lead-sheathed
wreck at Porto Novo (Angra do Heroísmo, Terceira island,
Azores, Portugal)”. Revista Portuguesa de Arqueologia, volume
2. número 1, pp. 249-254.
Garcia, C. e Monteiro, P. (2001), The excavation and dismantling
of Angra D, a probable Iberian seagoing ship, Angra bay, Terceira
Island, Azores, Portugal. Preliminary assessment. In International
Symposium on Archaeology of Medieval and Modern Ships of Iberian-Atlantic
Tradition. F. J. S. Alves. Lisboa, IPA. Trabalhos de Arqueologia
18, pp. 431-447.
Garcia, C., et al. (1999), "Os destroços dos navios
Angra C e D descobertos durante a intervenção arqueológica
subaquática realizada no quadro do projecto de construção
de uma marina na baía de Angra do Heroísmo (Terceira,
Açores). Revista Portuguesa de Arqueologia, volume 2. número
2, pp. 211-232.
Monteiro, P. (1999), Os destroços dos navios Angra C e D
descobertos durante a intervenção arqueológica
realizada no quadro do projecto de construção de uma
marina na baía de Angra do Heroísmo (Terceira, Açores):
discussão preliminar. In Revista Portuguesa de Arqueologia,
volume 2. número 4, pp. 233-261.
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