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Seminário27.01.2022
Modos da Melancolia
15h30 | online A melancolia no tratado IV da Arquipatologia de Filipe Montalto, por Nuno Miguel Proença (CHAM); Burton e os modos da observação melancólica, por Cláudio Alexandre S. Carvalho

 

 

A melancolia no tratado IV da Arquipatologia de Filipe Montalto

Com o prestígio alcançado pelos seus trabalhos clínico e científico, mas sobretudo por ter curado as perturbações mentais da aia e irmã de leite de Maria de Médicis, o médico português Filipe Montalto foi convidado a deixar Veneza, onde vivia e exercia, já longe da sua cidade natal de Castelo Branco, para se juntar à corte francesa e aí cuidar da Rainha. Em 1614, já em Paris, é publicada a sua monumental Arquipatologia, cuja investigação sobre doenças mentais é seguramente a mais exaustiva à época e também uma das mais notáveis desde então. No tratado IV desta obra, especificamente dedicado à definição da melancolia, às suas causas e ao seu tratamento, encontramos um grande número de questões formuladas pela tradição hipocrática e galénica no que respeita à especificidade desta afecção e às ligações que por ela se podem deduzir entre a mente e o corpo, mas também entre a saúde mental e os altos e baixos da condição humana.

 

Burton e os modos da observação melancólica

O sucesso da Anatomia da Melancolia, obra que até à morte de Robert Burton permanecerá em constante crescimento, é indissociável de uma metamorfose no seu tema cardinal. Argumentarei que tal metamorfose depende da recorrente oscilação do primado da “observação da melancolia” –que tem por objecto o desequilíbrio fisiológico nas quantidades e qualidades da bílis negra e as vias médicas de restabelecimento-, para a melancolia como “condição de observação”, concitada primeiramente pela condição biográfica do autor, em grande medida congregada nos traços da melancolia académica [scholar’s melancholy] e no olhar distanciado da Commonwealth, variantes da exclusão descontente consideradas por L. Babb. Ainda que a relação dialógica com o leitor, inerente ao percurso da Anatomia, não seja totalmente abandonada, é uma experiência interior que fornece as imagens e estabelece os objetivos da articulação discursiva. Ao invés da passividade emocional que caracteriza a melancolia mortal, congénita ou adquirida, bem como da categorização prática dessa patologia segundo o discurso médico, essa observação pautada pela melancolia é marcada por uma capacidade de suportar os efeitos imediatos das emoções e ressignifica-las criativamente. É a observação particular proporcionada pela experiência de paixões negativas, pela reflexividade inerente à observação da degeneração e/ou “perda”, que possibilita um exame dos poderes que transcende a destrutividade satírica e a idealidade utópica (patentes no prefácio da Anatomia), aproximando-se de uma visão reformadora das instituições primárias da sociedade: medicina, educação, economia e política. Ainda que por vezes essa via conduza aos impasses da auto-indulgência e do ressentimento, tal desvio emocional é a condição de abertura a uma significação mais profunda dos afectos e ao reconhecimento mais abrangente da dimensão social das paixões. Segundo os pressupostos de autores como W. Lepenies, tal mediação psíquica e espiritual dos afectos melancólicos permite estender a modos de observação crítica da realidade social. Contudo, a obra de Burton é marcada por um paradoxo recorrente, a supressão da melancolia, enunciada como fim dos diferentes discursos –médico, pedagógico, económico e político-, requer a experiência de observação melancólica. O valor da observação melancólica ressurge em momentos históricos marcados pelo optimismo avassalador -baseado no valor da humanidade (Renascença), na confiança na razão (Iluminismo) ou no(s) fim(s) tecnológico(s) da história-, períodos que geram consistentemente tentativas de suprimir (ou reduzir) a experiência de luto e tristeza. Na Anatomia, isto torna-se particularmente interessante se tivermos em mente que Burton aborda as possibilidades e limites das instituições, num momento decisivo da sua diferenciação. Se é certo que o diagrama Mundus-Annus-Homo fornece ainda as suas coordenadas e conceitos, Burton participa da revisão dos fundamentos naturais e religiosos que legitimavam aquele horizonte.

 

Comissão Organizadora

Adelino Cardoso  (CHAM)
Teresa Lousa  (CHAM)



 

Organização

CHAM / NOVA FCSH

 

 

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