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Seminário29.11.2023
Modos da Melancolia
15h30 | online Pensamento e obra de Freud em torno da Melancolia. Etapas e ramificações do conceito no trabalho de Freud, por Marta Matos; A Melancolia e a Perda da Fragilidade, por François Gysin

 

Pensamento e obra de Freud em torno da Melancolia. Etapas e ramificações do conceito no trabalho de Freud

 

O presente trabalho de comunicação tem por objectivo central pôr em perspectiva o que poderíamos inscrever como uma genealogia do pensamento e obra de Freud em torno do termo e concepção de Melancolia. Para tal, revisitamos tanto os textos do autor, como a leitura de autores da psicanálise contemporânea que se debruçam sobre a Melancolia em Freud.
Aflorar a história de um termo tão rico de sentidos e transdisciplinar como o de Melancolia, que atravessa séculos de tradição na Filosofia, Poesia e Medicina (Antiguidade Clássica, Idade Média, Romantismo), é compreender que o movimento da Psiquiatria do séc. XIX abandona a Melancolia para demarcar-se da “Teoria dos Humores” (Hipócrates), sendo neste contexto epistemológico que o termo de Melancolia é reabilitado por E. Bleuler e S. Freud (Lambotte, 1999).
Ora, a especificidade da Melancolia em Freud, e na qual propomos centrar o nosso propósito numa modesta e primeira instância, é dar a conhecer os momentos que pautam a trajectória de Freud através dos seus registos (cartas, ensaios). Desvelam-se duas vertentes em Freud, uma enquanto sintoma e outra enquanto mecanismo (Lambotte, 1999), ou seja, o autor procura definir as manifestações clínicas da M. e, progressivamente, propõe uma leitura dos mecanismos psicodinâmicos e psicanalíticos subjacentes, trabalho de decriptagem que se desenhará em várias fases (1897, 1917) e tem importantes ramificações na sua obra (1914, 1921...). Que o trabalho de interpretação da Melancolia em Freud constitui uma descoberta não seria exagero dizer, e podemos interrogarmo-nos em que medida a elaboração de Freud sobre a Melancolia representa um papel propulsor para a conceptualização e desenvolvimento teórico da psicanálise. Entretanto, o campo intermédio lançado com o entendimento freudiano das “psiconeuroses narcísicas” abre tantas janelas quanto potencialidades de questionamento e ancoragem para a prática clínica na psicopatologia e psicoterapias contemporâneas.

 

Marta Matos. Psicóloga (FPCE-U. Porto), doutorada em Psicologia Clínica e pós-doutorada em Psicopatologia e Psicanálise (Univ. Paris 7-Denis Diderot). Desde o ano 2000 é professora de Psicopatologia na Universidade Fernando Pessoa (UFP, Porto) e psicóloga clínica analítica, actividade a partir da qual tem desenvolvido trabalhos de investigação, assim como trabalhos de campo a nível interdisciplinar da criatividade, arte e educação. É membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental (AUPPF, S. Paulo); do CEPESE (Univ.Porto); e do Laboratório de Psicanálise, Processos Criativos e Interações Políticas (LAPCIP/UFSC, Sta. Catarina). Co-organizadora dos I e II Seminários Clínicos e Interdisciplinares Arte, Saúde e Criatividade, com Ana Lúcia Marsillac, Flávia Toledo (25/09/2019, UFP), Mário Serra, e Paulo de Jesus (18-23/11/2022, Univ.Portucalense, Porto).
e-mail : mmatos@ufp.edu.pt

 

A Melancolia e a Perda da Fragilidade

 

Para caracterizar o mecanismo da melancolia, Freud escreve em “Luto e Melancolia” (1919): “Assim, a sombra do objecto caiu sobre o Eu.” Esta metáfora revela uma topografia do espaço interior com uma dinâmica dramática de forças e de instâncias, topografia que se insere numa história milenar da noção de “espaço interior”. Em contraste com o luto, na melancolia o amor investido na pessoa perdida, ou num ideal, numa causa, não fica disponível para ser dirigido a um novo objecto. A energia é retida no Eu e serve para forjar uma identificação do Eu com o que foi perdido. A seguir, uma instância de crítica, mais tarde nomeado Super-Ego, escrutina com severidade o Eu como se se tratasse do objecto que se foi embora, que abandonou, que traiu. A perda do objecto torna-se assim perda do Eu. Para a resolução natural desta condição, Freud sugere o termo de “trabalho de melancolia” em analogia com o “trabalho de luto”. Num caso clínico ilustra-se o que há de solidez e a robustez na melancolia, que resiste a todas as tentativas terapêuticas quando demasiado zelosas e por isso facilmente fracassadas. A sólida coerência da melancolia revela uma paradoxal falta de fragilidade. A melancolia equivale a uma perda de fragilidade. O filósofo Jean-Louis Chrétien (1954-2017) elabora no seu livro “Fragilité” (2017) a história da noção e do tema da fragilidade, termo latino, romano e cristão, colocando-o em contraste com a noção, bem mais restrita, de fraqueza, ou seja, de astenia, de falta de força, dos autores gregos. A fragilidade subentende e implica uma estrutura, uma complexidade, e um potencial de fracasso, com linhas de falhas, mas também um potencial positivo de transparência, de possível iluminação e capacidade de ressonância.

 

François Gysin é psiquiatra e psicoterapeuta. Cresceu perto do lago de Zurique. Após curso de medicina em Lausanne e Zurique e especialização em psiquiatria e psicoterapia em Genebra, emigrou para Portugal em 1994, adquirindo nacionalidade portuguesa. Exerce no seu consultório de prática privada em Lisboa.

 

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