
Esta sessão retoma a proposta apresentada por Nuno Miguel Proença em Abril passado, no seminário intitulado «Imaginação, ficção e as narrativas que nos tocam». Na linha de Paul Ricœur e Richard Kearney, recordava-nos Nuno Proença que a imaginação nos oferece «uma variedade de figuras que constituem "experiências de pensamento" capazes de alterar as nossas representações do mundo e o sentido que damos às nossas vidas». Com efeito, utilizamos a imaginação tanto para ler narrativas ficcionais como para nos abeirarmos de narrativas autobiográficas, sejam elas lidas ou escutadas nos nossos encontros quotidianos. Porém, ler uma narrativa na página (ou vê-la no palco ou na tela) proporciona-nos um espaço seguro e pleno de possibilidade (Winnicott, Playing and Reality, 1971): permite-nos aproximarmo-nos de outras histórias e percebermos a sua ressonância em nós sem a necessidade imediata de agirmos; e convida-nos a sentir, a reflectir (Felski, Uses of Literature, 2008) e a integrar essa reflexão no nosso modo de estar no mundo.
Este seminário propõe que desenvolvamos «experiências de pensamento» sobre cuidado e vulnerabilidade a partir de representações de espaços de cuidado no romance The Swimmers, da nipo-americana Julie Otsuka (2022). Sendo aparentemente sobre natação, este é também um romance sobre demência e interdependência e confronta-nos com dois espaços de cuidado: um colaborativo, onde o cuidado mútuo assenta na consciência da vulnerabilidade por todos partilhada; outro competitivo, onde o poder de quem gere a prestação de cuidados é contrastado com a vulnerabilidade de quem é cuidado. Consideraremos o modo como a representação vívida desses espaços nos interpela enquanto leitores e cidadãos: permite-nos apreender, afectiva e cognitivamente, como o acto de cuidar assenta num «reconhecimento mútuo» (Vickers e Bolton, Being Ill, 2024); e desafia-nos a reflectir sobre as exigências éticas e políticas daí decorrentes, designadamente como criar comunidades de cuidado a partir de um reconhecimento da nossa vulnerabilidade e interdependência (Gawande, Ser Mortal, 2015; The Care Manifesto, 2020).
Coordenação
Adelino Cardoso (CHAM)
Nuno Miguel Proença (CHAM)
Organização
CHAM / NOVA FCSH
Seminário Permanente “Ciência e Cultura – Quebrar Fronteiras”