Panel 01: Corpos em Trânsito: Metamorfoses e Movimentos (PT & EN)
Chairs:
Ricardo Gil Soeiro (Centros de Estudos Comparatistas, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), Lígia Bernardino (Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa - UPorto) & Cristina Álvares (Centro de Estudos Humanísticos - UMinho)
15 April, 10.30 am | Room D106
Ser-para-a-metamorfose em "Axolotl" (1952), de J. Cortázar
Ricardo Gil Soeiro (Centro de Estudos Comparatistas, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)
A partir do conto "Axolotl" (1952), de Julio Cortázar, este trabalho propõe uma reflexão sobre as figuras da metamorfose e do movimento à luz das teorias pós-humanistas, interrogando os limites da subjectividade humana e a sua abertura ao não-humano. Procuraremos examinar o modo como a narrativa em apreço encena o processo gradual de dissolução das barreiras identitárias através da osmose entre o observador humano e os anfíbios que contempla, culminando tal processo numa transmutação que desvela a continuidade vital entre espécies. A hipótese a testar é a de que a obra cortazariana se filia num devir intersticial que recusa dicotomias clássicas (sujeito/objecto), apontando, assim, para uma órbita inter-especista de recorte pós-antropocêntrico.
Palavras-chave: anti-especismo; diferença; metamorfose; movimento; pós-humanismo crítico
As metamorfoses do cuidar: uma abordagem ecocrítica
Lígia Bernardino (Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, Universidade do Porto)
A alienação relativamente à natureza leva o humano à falácia de se considerar um ser autotélico e, por consequência, livre. No entanto, a negação dessa pertença não a elimina; antes, conduz ao descuido, cujos efeitos se manifestam em alarmantes alterações climáticas e tecnicização do quotidiano. Falta, pois, um deslocamento que promova o cuidar. O conceito de “becoming-with”, desenvolvido por Donna Haraway (2008), instiga à necessidade de novas acomodações do humano num mundo plural. Por outro lado, a rede de conexões entre humano e não-humano, de que a formulação “zoe/geo/techno” teorizada por Rosi Braidotti (2019) é síntese, aponta para possibilidades interrelacionais que aprofundem a experiência dos seres nesse mesmo mundo. Pela literatura, por seu turno, abundam possibilidades e metamorfoses onde novos diálogos que não exclusivamente humanos se divisam. É esse o cerne deste estudo. Assimilar as árvores exteriores para concretizar a experiência da escrita (Fiama Hasse Pais Brandão, 1978); criar uma criança-ruah que é a soma de outros seres (Maria Gabriela Llansol, 2001); incrustar uma tabela periódica no corpo (Gonçalo M. Tavares, 2010): estes são exemplos de movimentos metamórficos que questionam o ser humano num mundo em mutação e com perigos constantes a que urge acudir e cuidar.
Palavras-chave: ecocrítica; pós-humanismo; natureza; técnica; cuidar
(a)subjetividades mais do que humanas: perspetivas zoopoéticas
Cristina Álvares (Centro de Estudos Humanísticos, Universidade do Minho)
Verifica-se, no discurso teórico-crítico dos estudos animais e de outras correntes cobertas pelo pós-humanismo crítico, uma sobreposição, senão mesmo uma sinonímia, entre noções tão diferentes como subjetividade, identidade, self, consciência, agentividade. Em consequência, as novas subjetividades pós-humanas vêm reabilitar e assentar em formas pré-freudianas de subjetividade, o que me parece corresponder a uma regressão teórico-conceptual. O propósito desta comunicação é apresentar uma outra maneira de perspetivar as zonas de encontro entre humanos e animais. Teorizada por Anne Simon, a zoopoética estuda modalidades de presença animal na literatura, desde a ressonância animal dos textos, na tradição da semanálise (Kristeva) e da filosofia de Deleuze (o devir-animal), até a formas de tematização e representação diegética de animais. A zoopoética postula que a animalidade literária desestabiliza a personagem e/ou o/a leitor/a humanos, desorienta-os por via de um efeito des-subjetivante que promove a saída (ekstasis) das suas várias identidades, incluindo a humana. Este fenómeno é dramatizado em Tropique de la violence (2016), romance de Nathacha Appanah que, tematizando as migrações ignoradas (neste caso, as do Canal de Moçambique), se presta à análise das travessias ontológicas no âmbito de outras travessias.
Palavras-chave: migrações; animais; subjetividade; zoopoética; pós-humanismo
Nowhere to Belong: Trans Corporeality and Spatial Negation in Contemporary Art
Cristián Roldán (University of Oviedo)
This research addresses the conception of the trans body as a non-space, understanding that trans realities are traversed daily by symbolic violence that questions not only identity, but existence itself. Unlike other dissident groups historically considered ‘inferior,’ trans people are placed in a regime of constant denial that prevents their full inscription into the social sphere. This repeated questioning causes a detachment from geographical and community reality, generating bodies that seem to belong nowhere, denied both institutionally and culturally, as well as in their most immediate local ties. The study focuses on three artists who allow us to reflect on this phenomenon between space and trans corporeality. In Zanele Muholi's work, dissident bodies are revalued from an intersection where gender, race and class converge, configuring archives of memory and denunciation of violence. Teresa Margolles, especially in On the Dance Floor, reveals the material violence suffered by trans women, while calling for the urgent need for spaces of existence and recognition, both symbolic and physical. Finally, Greer Lankton highlights the possibility of creating an autonomous universe of one's own, where artistic practice embodies a refuge and an affirmation of trans reality. In this way, the work proposes a journey where art, corporeality and spatiality intertwine to show how the trans body, despite being denied and expelled, also becomes a place of memory, resistance and creation of new ways of inhabiting the world.
Keywords: trans; body; queer; contemporary art; cultural studies
