Panel 04: A casa, o palácio, o convento: mobilidade e transculturalidade nos espaços de poder feminino entre os mundos ibérico e atlântico (séculos XVI-XX) (PT)
Chair: María del Castillo García Romero (Universidad de Castilla-La Mancha)
15 April, 2 pm | Room C002
Os espaços de poder em feminino. Dinâmicas transatlânticas nos conventos andaluzes na Idade Moderna
María del Castillo García Romero (Universidad de Castilla-La Mancha)
Nas últimas décadas, os espaços religiosos femininos tornaram-se importantes laboratórios analíticos para a implementação e experimentação de novas metodologias. Estas abordagens procuram repensar e reinterpretar estes espaços como plataformas abertas à investigação interdisciplinar que se cruza com campos como a história social, económica, arquitetónica e da arte. Neste sentido, tanto a historiografia europeia como a latino-americana contribuíram nas últimas décadas não só para a definição de um quadro teórico, mas também para a implementação de um quadro metodológico que permite, à maneira de Mieke Bal, o cruzamento de conceitos itinerantes que atravessam diferentes territórios disciplinares e propõem renovadas perspectivas de análise em torno de novas noções.
Assim, nesta comunicação, pretendemos explorar as dinâmicas que emergiram nos espaços conventuais andaluzes como paradigma para a criação de diferentes sistemas económicos que se definiram nos contextos vitais, ideológicos, funcionais e de poder em que a comunidade em estudo operava.
A nossa análise irá focar-se especificamente num caso particular dentro do antigo Reino de Sevilha. Situado numa encruzilhada territorial no início da Idade Moderna, ilustraremos, sob diversas perspectivas, o desenvolvimento de um modelo económico que cumpriu o seu propósito e foi reforçado através de diversas actividades e formas de gestão conventual. Daremos especial atenção às ligações estabelecidas pelas freiras no mundo ibérico — principalmente na região atlântica — através de ligações marítimas com diversos agentes envolvidos em doações, obras de caridade e na promoção do seu património Artístico.
Palavras-chave: arquitetura; poder; conventos femininos; Idade Moderna; mundo ibérico; região atlântica
Rosa Egipcíaca, prisioneira da fé: conversão e poder de uma africana escravizada no Brasil, até seu encarceramento pela Inquisição Portuguesa, no século XVIII
Susan Aparecida de Oliveira (Universidade Federal de Santa Catarina)
Rosa Egipcíaca, africana e escravizada, viveu no século XVIII, entre África, Brasil e Portugal. Traficada da Costa da Mina, no Golfo de Benim, em 1725, aos seis anos de idade, chegou ao Rio de Janeiro, onde foi comprada e vendida anos depois para uma senhora das Minas Gerais. Lá foi prostituída e convertida ao catolicismo, tendo sua vida dedicada à busca da santidade. Retornou ao Rio de Janeiro para fundar o Recolhimento do Parto, instituição semelhante aos conventos, onde era considerada Madre tanto pelas autoridades jesuítas quanto pelas suas práticas rigorosas de conversão e poder junto às mulheres que acolhera. Por sua conduta, em 1762, foi acusada, presa e transferida para Lisboa, onde permaneceu no cárcere do Palácio dos Estaus, sede do Santo Ofício, até a sua morte, em 1771. Rosa Egipcíaca foi uma mulher paradoxal, transformou o seu destino de escravizada e teve poder e reconhecimento da Igreja Católica até que sua fé e dedicação à sua missão de se tornar "Santa" a faz decair no contexto político pombalino juntamente com a estrutura jesuítica que lhe dava suporte. Rosa Egipcíaca desafiou o limite das possibilidades de uma mulher escravizada na sociedade colonial brasileira, equilibrando obediência e insubmissão, sem perceber que a própria fé que lhe abria as portas era a que lhe levaria ao encarceramento definitivo.
Palavras-chave: conversão; conventos; poder; Brasil; Inquisição
Da invisibilidade à presença urbana: os conventos femininos no tecido urbano de Évora na Idade Moderna
Tiago Giovanini Sobral (CeArq-TD e DArq-FCTUC, Universidade de Coimbra), Catarina Almeida Marado (CES, Universidade de Coimbra/ FCHS, Universidade do Algarve) & Rui Lobo (Universidade de Coimbra, CES-UC e CeArq-TD, DArq-FCTUC)
During the Early Modern period in Portugal, women who entered convents, mostly from aristocratic families, generally did so under family imposition, either when unmarried or as second daughters. Although at times it had a compulsory character, convent life was often regarded as a more advantageous alternative to marriage, as it ensured greater social respect and relative autonomy. Although legally excluded from professions such as master craftsmen, architects, or master builders, women, once consecrated as nuns, exercised significant influence within convents, taking part in the design of projects they sponsored and, in many cases, having the means to acquire adjacent buildings, expand their convents, and assert their presence in the city. This power was reflected in monastic architecture, which, although conceived and designed by men, occupied a prominent role in the urban fabric, sometimes situated along important streets, displaying high walls and observation towers resembling fortresses, and often occupying entire city blocks.
Occasionally, convents were connected to the Chaplain’s House by interconnecting passageways that crossed public streets, thereby demonstrating the considerable extension these institutions could achieve within the urban fabric. To this end, through the analysis of female convents in Évora, southern Portugal (Convent of Salvador do Mundo, Convent of Santa Helena do Monte Calvário, and Convent of Santa Clara) we will interpret monastic architecture as a space of spiritual, intellectual, social, and economic autonomy, and as an instrument of resistance to social norms. To this end, we will rely on the collection of documentary and bibliographical sources on the subject, the study of original architectural plans, as well as the digital reconstruction of demolished convents through iconographic, photographic, and documentary records.
Palavras-chave: Évora; female convents; female autonomy; urban fabric; urban presence
