Panel 14: Narrativas de mobilidade em países de língua portuguesa (PT)
Chairs: Mario Luis Grangeia (Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre a Desigualdade, Universidade Federal do Rio de Janeiro) & Paula Cajaty (ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa)
17 April, 2 pm | Room C009
À procura da "terra maior que o mundo": Identidade imaginada e perdida em Poemas para Macau, de Cecília Jorge
Hugo M. M. Pinto (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; Centro Científico e Cultural de Macau)
Em Poemas para Macau (2020), Cecília Jorge (n. 1950) problematiza a identidade macaense como parte da história colonial portuguesa, particularmente o fim do império, com a entrega do território à China, momento de transição e trauma. Repositório de diferentes projeções, território simbólico por excelência, na cidade confundem-se representações de identidade e comunidade e a sua desconstrução. Além da realidade histórico-social, Macau aparece, sobretudo, como ideia: primeiro, comunidade imaginada, depois, comunidade perdida, que a autora procura reconstituir numa ascese memorialista e sentimental. Na tensão da ambivalência e do desencontro entre memória e história, assoma a morfologia de uma cidade imaginária e espaço de reconhecimento, "universo fechado onde tudo é signo" (M. Augé). Interessa, assim, analisar a legibilidade de Macau enquanto itinerário real e simbólico, empírico e imaginativo, no qual se cruzam e conflituam tempos e narrativas, e em que o mesmo sujeito poético se desdobra entre a pertença e a exclusão, num lugar simultaneamente casa e exílio. Na poesia da autora, de "natalis humus", Macau transforma-se em "terra aliena", num percurso que permite interpretar a noção de "lugar", ou "lar", como algo menos concreto e definido do que negociado, aberto a nuances e subtilezas. Do mesmo modo, nesta representação literária do exílio, pertença, exclusão e memória – tal como identidade –, apresentam-se dinâmicas, ajustáveis, mesmo na recusa ou na indefinição, evidenciando como, enquanto fronteiras simbólicas, são porosas e maleáveis.
Palavras-chave: colonialismo; exílio; diáspora; identidade; hibridismo
Representações do Outro no romance pós-colonial português
Fernanda Hamann (Universidade de São Paulo)
O mundo tem sofrido graves crises planetárias (guerras, pandemias, catástrofes climáticas) que tornam urgente uma maior cooperação global entre diversos povos e nações. Para isso, é preciso uma redefinição das relações nacionais e internacionais, marcadas pelo colonialismo e por heranças socioculturais supremacistas, como o racismo e a xenofobia. Desde o século XX, a literatura é um campo de elaboração e disseminação do pensamento pós-colonial, na busca de países outrora colonizados pela construção de suas respectivas identidades nacionais. Neste campo, Portugal apresenta uma peculiaridade: embora se situe historicamente do lado do colonizador, o país abriga uma rica produção literária pós-colonial, nomeadamente sobre a violência da guerra colonial em África (1961-1975) e o trauma do retorno de militares e colonos portugueses a um país empobrecido e incapaz de acolher a todos. Um romance recentemente publicado parece representar uma nova perspectiva para a literatura pós-colonial portuguesa. Em As doenças do Brasil (2021), Valter Hugo Mãe assume o ponto de vista do colonizado, valorizando a resistência de povos indígenas e africanos escravizados contra o colonizador português (referido como uma 'fera branca' inclinada a exterminar povos inteiros). Ao se dedicar ao projeto literário de 'tornar-se o Outro', Mãe assume responsabilidade pela violência implícita à herança colonial de seu país e inclui a dimensão da alteridade como imprescindível à construção de uma identidade pós-colonial portuguesa. Com base no caráter autocrítico de um discurso literário sobre um passado colonial eurocêntrico, que continua a produzir efeitos na contemporaneidade, propõe-se um estudo comparado entre o romance de Mãe e outros romances pós-coloniais portugueses, especificamente quanto ao modo como o Outro é representado em cada um deles: Autópsia de um mar de ruínas (1984), de João de Melo; A costa dos murmúrios (1988), de Lídia Jorge; e Deus-dará (2019), de Alexandra Lucas Coelho.
Palavras-chave: romance pós-colonial português; literatura contemporânea; colonialismo; alteridade; identidade nacional
O léxico da "Revolução": Um estudo de História Conceitual da Gazeta da Restauração e do Mercúrio Portuguez
Luan de Oliveira Vieira (Universidade NOVA de Lisboa; Universidade Federal de São Paulo)
Essa apresentação visa discutir o campo semântico das Revoltas e Revoluções durante a Restauração Portuguesa (1640–1668) a partir da análise dos primeiros periódicos de Portugal, a Gazeta “da Restauração” e Mercúrio Portuguez. Observaremos, por um lado, a escolha do que era noticiado e, por outro, quais os termos empregados para noticiar revoltas, levantes, motins e os eventos da própria Restauração. Debatendo com a historiografia sobre as Revoluções e a chamada "Crise Geral" do século XVII, a hipótese a ser desenvolvida é que a Gazeta buscava versar seus leitores na narrativa do golpe “restaurador” da ordem, constituindo um campo semântico no qual “revolução” e “restauração” ocupam posições antitéticas no discurso político.
Palavras-chave: História Moderna; Portugal; século XVII; Restauração; História dos Conceitos
