Panel 14: Narrativas de mobilidade em países de língua portuguesa (PT)
Chairs: Mario Luis Grangeia (Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre a Desigualdade, Universidade Federal do Rio de Janeiro) & Paula Cajaty (ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa)
17 April, 2 pm | Room C009
Mobilidades de populações no Brasil e imaginários de deslocamentos: da literatura para o cinema como equipamento estético de análise cultural
Ney Alves de Arruda (Universidade Federal de Mato Grosso)
Como introito desta submissão, cumpre destacar que se trata de atividade em projeto de investigação cadastrado na Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade Federal de Mato Grosso - Brasil, onde o pesquisador-autor é docente do Curso de Cinema e Audiovisual na Faculdade de Comunicação e Artes. Tendo em vista a disciplina História da Arte Moderna e Contemporânea e seus reflexos em estudos sobre a Filosofia da Arte e a Estética, o cinema é aqui instrumentalizado como ferramenta de estudo ao longo da história do cinema brasileiro. Objetiva-se apresentar a resultante desse recorte epistemológico, no sentido de que há um considerável acervo do cinema nacional que bebe constantemente da fonte literária. Quando muitas inspiradoras obras de escritores brasileiros consagrados são transformadas em filmes. Nesse sentido, obras de grandeza histórica retratam situações de mobilidade e migração que já foram eternizadas na grande tela do cinema. Discutir-se-á essa relação entre a obra literária e sua modelagem no cinema, vivenciando a mobilidade humana. Como prévias resultantes, constata-se, por exemplo, o livro Vidas Secas do autor brasileiro Graciliano Ramos. O qual narra o caminho percorrido por uma família de retirantes que sai da região semiárida do sertão nordestino, se deslocando penosamente em busca de água para sobreviver e fugir da seca. Essa magnífica obra sofreu adaptação pelo cineasta brasileiro Nelson Pereira dos Santos no ano de 1963. Obra cinematográfica que se notabilizou no chamado Cinema Novo Brasileiro. Conclui-se preliminarmente que poetas como João Cabral de Mello Neto e seu poema “Morte e Vida Severina” sobre retirantes da seca no Nordeste também se transformou em animação cinematográfica. Além do livro de Milton Hatoum Retrato de um certo oriente, que versa sobre família libanesa imigrante no Brasil e se transformou em filme do mesmo nome. Assim, demonstraremos que a 7.ª Arte está atenta ao labor literário de fluxos migratórios.
Palavras-chave: mobilidade; humana; literatura; estética; cinema
À procura da "terra maior que o mundo": Identidade imaginada e perdida em Poemas para Macau, de Cecília Jorge
Hugo M. M. Pinto (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; Centro Científico e Cultural de Macau)
Em Poemas para Macau (2020), Cecília Jorge (n. 1950) problematiza a identidade macaense como parte da história colonial portuguesa, particularmente o fim do império, com a entrega do território à China, momento de transição e trauma. Repositório de diferentes projeções, território simbólico por excelência, na cidade confundem-se representações de identidade e comunidade e a sua desconstrução. Além da realidade histórico-social, Macau aparece, sobretudo, como ideia: primeiro, comunidade imaginada, depois, comunidade perdida, que a autora procura reconstituir numa ascese memorialista e sentimental. Na tensão da ambivalência e do desencontro entre memória e história, assoma a morfologia de uma cidade imaginária e espaço de reconhecimento, "universo fechado onde tudo é signo" (M. Augé). Interessa, assim, analisar a legibilidade de Macau enquanto itinerário real e simbólico, empírico e imaginativo, no qual se cruzam e conflituam tempos e narrativas, e em que o mesmo sujeito poético se desdobra entre a pertença e a exclusão, num lugar simultaneamente casa e exílio. Na poesia da autora, de "natalis humus", Macau transforma-se em "terra aliena", num percurso que permite interpretar a noção de "lugar", ou "lar", como algo menos concreto e definido do que negociado, aberto a nuances e subtilezas. Do mesmo modo, nesta representação literária do exílio, pertença, exclusão e memória – tal como identidade –, apresentam-se dinâmicas, ajustáveis, mesmo na recusa ou na indefinição, evidenciando como, enquanto fronteiras simbólicas, são porosas e maleáveis.
Palavras-chave: colonialismo; exílio; diáspora; identidade; hibridismo
Representações do Outro no romance pós-colonial português
Fernanda Hamann (Universidade de São Paulo)
O mundo tem sofrido graves crises planetárias (guerras, pandemias, catástrofes climáticas) que tornam urgente uma maior cooperação global entre diversos povos e nações. Para isso, é preciso uma redefinição das relações nacionais e internacionais, marcadas pelo colonialismo e por heranças socioculturais supremacistas, como o racismo e a xenofobia. Desde o século XX, a literatura é um campo de elaboração e disseminação do pensamento pós-colonial, na busca de países outrora colonizados pela construção de suas respectivas identidades nacionais. Neste campo, Portugal apresenta uma peculiaridade: embora se situe historicamente do lado do colonizador, o país abriga uma rica produção literária pós-colonial, nomeadamente sobre a violência da guerra colonial em África (1961-1975) e o trauma do retorno de militares e colonos portugueses a um país empobrecido e incapaz de acolher a todos. Um romance recentemente publicado parece representar uma nova perspectiva para a literatura pós-colonial portuguesa. Em As doenças do Brasil (2021), Valter Hugo Mãe assume o ponto de vista do colonizado, valorizando a resistência de povos indígenas e africanos escravizados contra o colonizador português (referido como uma 'fera branca' inclinada a exterminar povos inteiros). Ao se dedicar ao projeto literário de 'tornar-se o Outro', Mãe assume responsabilidade pela violência implícita à herança colonial de seu país e inclui a dimensão da alteridade como imprescindível à construção de uma identidade pós-colonial portuguesa. Com base no caráter autocrítico de um discurso literário sobre um passado colonial eurocêntrico, que continua a produzir efeitos na contemporaneidade, propõe-se um estudo comparado entre o romance de Mãe e outros romances pós-coloniais portugueses, especificamente quanto ao modo como o Outro é representado em cada um deles: Autópsia de um mar de ruínas (1984), de João de Melo; A costa dos murmúrios (1988), de Lídia Jorge; e Deus-dará (2019), de Alexandra Lucas Coelho.
Palavras-chave: romance pós-colonial português; literatura contemporânea; colonialismo; alteridade; identidade nacional
O léxico da "Revolução": Um estudo de História Conceitual da Gazeta da Restauração e do Mercúrio Portuguez
Luan de Oliveira Vieira (Universidade NOVA de Lisboa; Universidade Federal de São Paulo)
Essa apresentação visa discutir o campo semântico das Revoltas e Revoluções durante a Restauração Portuguesa (1640–1668) a partir da análise dos primeiros periódicos de Portugal, a Gazeta “da Restauração” e Mercúrio Portuguez. Observaremos, por um lado, a escolha do que era noticiado e, por outro, quais os termos empregados para noticiar revoltas, levantes, motins e os eventos da própria Restauração. Debatendo com a historiografia sobre as Revoluções e a chamada "Crise Geral" do século XVII, a hipótese a ser desenvolvida é que a Gazeta buscava versar seus leitores na narrativa do golpe “restaurador” da ordem, constituindo um campo semântico no qual “revolução” e “restauração” ocupam posições antitéticas no discurso político.
Palavras-chave: História Moderna; Portugal; século XVII; Restauração; História dos Conceitos
