Panel 17: Diásporas em Português: Um Projeto de Enciclopédia Digital (PT)
Moderadora: Susete Albino (CHAM-NOVA FCSH)
17 April, 3:45 pm | Room C009
Diáspora(s) e comunidade(s) por vir: um projeto de enciclopédia para o século XXI
Ana Paula Coutinho (Faculdade de Letras da Universidade do Porto - Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa)
Inserida num painel que se propõe contribuir para a temática central do Colóquio, a minha proposta de comunicação, partirá de uma reflexão sobre o sentido e as possibilidades atuais de montagem de uma “enciclopédia” para o século XXI, assim como dos pressupostos e objetivos principais da “Diásporas em Português”, para equacionar as potencialidades deste trabalho colaborativo, no sentido não apenas de disseminação, através da Web, de informações e leituras sobre autores e obras de países de língua portuguesa ligadas a vivências de diáspora, mas também de potenciação de pensamento e de práticas discursivas diaspóricas. Até que ponto uma enciclopédia digital, enquanto “work in progress”, extravasa do sentido andersoniano de “comunidades imaginadas” e poderá contribuir para uma “comunidade por vir”, no sentido que lhe atribuiu Giorgio Agamben (1990)?
Keywords: Diásporas em Português; enciclopédia; comunidade(s); artes diaspóricas
Diáspora e reparação na escrita de Joaquim Arena
Patrícia Martinho Ferreira (Brown University)
Joaquim Arena corporiza o que, desde o início dos anos 2000, tem sido designado por vários investigadores como Afroeuropa, fazendo parte da nova geração de escritores interessados nos legados do colonialismo no contexto lusófono. Nascido de pai português e mãe cabo-verdiana, a sua condição de existir entre culturas é um ponto fulcral da sua escrita transnacional e com uma forte dimensão reparadora. O seu trabalho revela um compromisso em abordar os desafios enfrentados pelos descendentes de africanos que vivem na Europa pós-colonial, uma sociedade multicultural marcada pela persistência de uma episteme colonial. Sobre o tema da diáspora, Arena publicou o livro de não-ficção Debaixo da Nossa Pele. Uma Viagem (2017) e dois romances: A Verdade de Chindo Luz (2006) e Siríaco e Mister Charles (2022). Esta comunicação propõe uma leitura destas obras a partir do ponto de vista das experiências diaspóricas (individuais e coletivas) e das suas repercussões físicas, mentais e emocionais num espaço-tempo pós-colonial. Esta análise revela o esforço de Arena para apresentar uma arqueologia da presença africana em Portugal que é simultaneamente privada/individual e pública/coletiva. O ímpeto palimpséstico, o tema da viagem e as dimensões transnacionais e socioculturais que permeiam estas narrativas permitem aos leitores aceder para além das memórias e espaços pessoais do narrador, recolocando a conversa sobre o legado africano silenciado nas esferas pública e política portuguesas.
Palavras-chave: Joaquim Arena; diáspora; viagem; Afroeuropa; Afroportuguês
(In)visibilidades – escrever a diáspora em Portugal e no feminino
Ana Margarida Fonseca (Instituto Politécnico da Guarda, Instituto Literatura Comparada)
Se é certo que nas últimas décadas se assiste, no contexto português, a uma maior visibilidade de vozes afrodescendentes – na cultura, na música, na literatura e nas artes – é ainda discreta a valorização desta presença e a atenção diferenciada à mesma. Com o presente contributo, procuraremos analisar alguns textos literários produzidos por autoras com ascendência africana, que ou nasceram em Portugal ou passaram partes significativas da sua infância e juventude neste país. Dentro destes, priorizamos um ponto de vista feminino, construindo, assim, uma visão comparativa e multifocal e observando como se vêm tornando mais visíveis (ou não) os corpos e as vozes das mulheres afrodescendentes. Convocaremos, deste modo, textos ficcionais produzidos por escritoras marcadas pela experiência da diáspora e da travessia de distintos territórios culturais, como Aida Gomes, Djaimilia Pereira de Almeida, Grada Kilomba, Yara Monteiro e Telma Tvon.
Keywords: diáspora; afrodescendência; ficção; Telma Tvon; Aida Gomes
Luísa Semedo and the Lusophone Diaspora: Decentring Eurocentric Narratives through Digital Memory
Margarida Rendeiro (CHAM, FCSH, Universidade NOVA de Lisboa)
This paper is part of the “Diásporas em Português: A Digital Encyclopedia Project”, which aims to map, systematise, and make accessible online the cultural and intellectual production of dispersed Lusophone communities. It focuses on the work and trajectory of Luísa Semedo, a Portuguese writer and activist of Cape Verdean origin—whose entry in the aforementioned digital encyclopedia is authored by me. Semedo’s writing, particularly in works such as Céu de Carvão, Mar de Aço (2017), among others, explores tensions between identity, collective memory, and migratory experience, articulating movements of resistance, belonging, and cultural re-signification. Moreover, her literary production contributes to decentring the Eurocentric narrative of the Atlantic and Europe, challenging hegemonic perspectives and offering alternative readings of the circulation of knowledge, cultural practices, and literary forms across Lusophone diasporas. By integrating her work into a digital encyclopedia, this paper highlights the extent to which this project seeks not only to preserve and disseminate her writing but also to situate it within networks of memory and solidarity among African and Afro-diasporic communities, thereby enriching contemporary debates on literature, identity, and memory in the Black Atlantic.
Keywords: Lusophone diasporas; digital memory; Luísa Semedo; memory; digital encyclopedia
