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Panel 27: Migratory experiences: imagery, visual arts, and entertainment (EN & PT)

 

Moderator: Carla Vieira (CHAM, FCSH, Universidade NOVA de Lisboa)

 

17 April, 2:00 pm | Room C008

 

 

Paisagens da mobilidade: o road movie entre migração e experiência diaspórica

José Duarte (CEAUL/ULICES, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa) & Filipa Rosário (Centro de Estudos Comparatistas, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)

 

O road movie tem sido tradicionalmente associado a narrativas de liberdade, mobilidade e autodescoberta, quase sempre projectadas sobre as vastas paisagens abertas da América do Norte (Corrigan & Duarte, 2018). No entanto, quando reinterpretado a partir das experiências de migração e diáspora, o género adquire novas dimensões, privilegiando temas como deslocação, trabalho e encontros transculturais. Esta proposta analisa Goodbye Solo (Ramin Bahrani, 2008) e Yoon (Pedro Figueiredo Neto & Ricardo Falcão, 2021) como estudos de caso da reconfiguração do road movie através das lentes da mobilidade e da paisagem. Em Goodbye Solo, a experiência imigrante inscreve-se no Sul dos Estados Unidos, onde o espaço limitado da viagem de táxi se transforma em palco central de trocas transculturais (Miner, 2019). A estrada surge fragmentada, repetitiva e urbana, refletindo as circulações próprias do trabalho migrante. Ainda assim, as paisagens da Carolina do Norte – quotidianas ou sublimes – enquadram uma narrativa sobre identidade, mortalidade e os frágeis laços tecidos em trânsito. Já em Yoon, a paisagem da África Ocidental, da Espanha e de Portugal não funciona apenas como pano de fundo, mas como uma geografia vivida, estruturada pelas viagens cíclicas de um migrante senegalês entre a Europa e a sua terra natal. O filme abranda o ritmo da deslocação, transformando autocarros, controlos e fronteiras em rituais que marcam tanto a separação como o regresso. A estrada deixa de ser linear para se tornar pendular, desenhando um ritmo diaspórico inscrito em paisagens de trabalho e pertença. Ao colocar estes filmes em diálogo, a proposta defende que Goodbye Solo e Yoon expandem as possibilidades do road movie, deslocando o foco da libertação individual para a migração colectiva, das estradas míticas e abertas para geografias marcadas pela precariedade e pela negociação transcultural. Desta forma, revelam como mobilidade e paisagem se entrecruzam na redefinição das geografias cinematográficas num mundo globalizado.

Palavras-chave: road movie; migração; diáspora; mobilidade; Portugal/Estados Unidos

 

 

Colonial Imagery and the Anthropophagic Metabolization: the Legacy of Sixteenth-Century Travel in Oswald de Andrade and Tarsila do Amaral

Kalinca Costa Soderlund (University of Essex)

 

This paper explores Early Modern colonial exoticist, yet transcultural, expressions through the lens of another and more recent transcultural expression in the Lusophone world: that of Antropofagia in early twentieth-century Brazil. In early post-colonial Brazil, the educated elite, of which the anthropophagus Oswald de Andrade and Tarsila do Amaral were part, not only had knowledge of texts written and illustrated by European explorers of the sixteenth century, but also possessed classical education; a fact that drew Amaral’s attention to Carvajal, Thévet, and Léry’s supposed rediscovery in South American colonial territory of two creatures from Greek mythology: the Amazonian and the Sciapod. Confronted with the task of depicting, both literary and visual, the land and inhabitants of Amazonia, European explorers described the Amerindians negotiating ‘otherness’ by mobilising monstrous races of classical and medieval legends, whilst Amaral, as the paper will show, moved within these Early Modern exercises of cultural translation to forge an original modernist avant-garde from Brazil—itself an act of cultural negotiation and metabolization of the Parisian leading trends of the time. In so doing, the paper links two types of iconographic translation: those of the sixteenth-century European travelogues of the New World, and the modernista one that Amaral and Andrade applied to depictions of the coloniser in its earliest encounters with Amerindian life and culture.

By examining the relationship between Amaral's paintings and the visual iconography of fictional and factual ethnographers and cosmographers such as Montaigne, Thévet, Léry, and Sir John Mandeville, the article demonstrates how Amaral engaged with the long history of exoticism and European interpretations of Native American culture. The paper also analyses Oswald de Andrade's readings of texts from: 1) the sixteenth century and their perception—as in the case of Cristóbal Colón and Americo Vespucci (1500)—of the European/Native relationship in the 'Antimundo', and of cannibalistic practice between repulsion, bestiality, and epistemologically based practice; 2) Montaigne and literature that dignified the Amerindian and its culture, and criticised Western ideology and self-aggrandisement from the perspective of Amerindian peoples. Fragments of the Revista de Antropofagia (1928–1929) are examined for: 1) the ways they drew upon such readings; and 2) the manner in which, through these references to the early colonial era, Andrade forged a narrative of ontological emancipation of Native epistemology as a model of cultural hybridity grounded in the anthropophagic act.

Keywords: Classical and Medieval cultural memory; otherness and alterity; colonial ethnography; antropofagia; iconographic translation

 

 

O lazer como sociabilidade entre os descendentes de imigrantes italianos em Alfredo Chaves: a boccia e a mora

Gabriel Pietralonga Marion (Universidade Federal do Espírito Santo)

 

No quarto final do século XIX, milhares de imigrantes italianos desembarcaram na então província do Espírito Santo, no Brasil, fugindo das precárias condições da pátria e em busca de uma vida melhor. A maior parte deles foi instalada nas terras banhadas pelo rio Benevente, na Colônia Rio Novo e posteriormente na Colônia Castello, regiões do atual município de Alfredo Chaves. Esses indivíduos enfrentaram a difícil tarefa de reaprender a viver num lugar totalmente desconhecido, onde construíram uma comunidade e desenvolveram sua cultura. O objetivo desta pesquisa é identificar a cultura legada pelos imigrantes italianos aos seus descendentes em Alfredo Chaves, com foco no lazer, em especial nos jogos chamados de "mora" e "boccia". O argumento principal do trabalho é que o lazer possui o papel de sociabilidade entre os descendentes de imigrantes italianos em Alfredo Chaves, sendo o palco de encontros sociais, onde as pessoas conversam sobre os mais variados temas, interagem, se divertem, constroem e mantêm amizades, etc. Como embasamento teórico, são empregados os conceitos de cultura, memória, identidade e habitus, a fim de compreender como se processam as relações socioculturais desse grupo de pessoas. Para atingir tais objetivos, utilizo a História Oral e o método etnográfico da observação participante, mediante entrevistas e contatos com os descendentes de imigrantes italianos.

Palavras-chave: imigrantes italianos; Alfredo Chaves; cultura; lazer; sociabilidade