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Entrevista a Nuno Miguel Proença
Fernando Gil recorda-nos «o que há de inseparável entre a verdade e a subjectividade»

 

A interdisciplinaridade é o «único modo de realmente aumentarmos a compreensão que temos de nós próprios e do mundo», salienta Nuno Miguel Proença, numa conversa sobre o pensamento de Fernando Gil e os seus contributos para pensarmos o mundo de hoje. A 18 e 19 de Março terá lugar um colóquio internacional sobre o filósofo, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, numa co-organização do CHAM e da FCG.

 

O Colóquio Internacional Fernando Gil pretende assinalar o 20.º aniversário da morte de Fernando Gil. A importância da sua obra continua a ser reconhecida pelas academias internacionais?

O reconhecimento da importância da obra de Fernando Gil tem sido feito de vários modos, nos países onde mais trabalhou. Em Portugal tiveram lugar vários colóquios, desde 2007 (no Convento da Arrábida, em Lisboa e no Porto, onde a sua obra é estudada no Departamento de Filosofia da UP), em França (onde foi directeur d’études na École des Hautes Études en Sciences Sociales), graças a uma iniciativa conjunta do Collège International de Philosophie, da Universidade Paris 1-Panthéon Sorbonne e da delegação parisiense da Fundação Gulbenkian, em 2014. Em Paris será em breve publicada a tradução de Mimesis e Negação. Em Itália, no Brasil, no Reino-Unido e nos Estados-Unidos (onde ensinou na Universidade Johns Hopkins), a sua obra também é conhecida, não só graças às redes de estudos leibnizianos, mas ainda por aqueles que com ele trabalharam directamente, que participaram no Júri do Prémio Internacional Fernando Gil (atribuído de dois em dois anos pela Fundação Gulbenkian e a FCT, entre 2010 e 2019) a trabalhos internacionalmente relevantes no âmbito da filosofia das ciências. Um dos laureados estará presente no Colóquio que terá lugar na FCG, nos dias 18 e 19 de Março de 2026, Niccolò Guicciardini.

 

Pode apresentar-nos em traços gerais o pensamento de Fernando Gil?

Considero que um dos aspectos essenciais do pensamento de Fernando Gil consiste em nos recordar o que há de inseparável entre a verdade e a subjectividade. Por paradoxal que possa parecer, a objectividade e a racionalidade, mesmo no que têm de mais abstrato (como na demonstração matemática, na modelização científica ou na teorização filosófica), requerem dinâmicas vivas da “subjectividade incompressível” (para retomar o título de um capítulo de Modos da Evidência, publicado em 1998) até no que nelas há de inconsciente, de afectivo ou de corpóreo. Intuição, evidência, convicção, crença, sentimento ou satisfação, para além da prova, aparecem de mãos dadas com o desejo de um sujeito natural. A percepção e a linguagem são constituídas uma dimensão arcaica, alucinatória (para retomar o termo de Freud, tão presente no Traité de l’Évidence, publicado em França em 1993) sem a qual não há nem representação, nem pensamento, nem compreensão, nem explicação. Essas dinâmicas da inteligibilidade, em que se conjugam o racional e o irracional, estão presentes tanto ao nível individual, como ao nível das relações, das redes e das instituições que tornam possíveis a investigação, a descoberta, a invenção ou a criação. Mostrar o que há de comum entre a invenção científica, filosófica e artística (como num dos capítulos de Mimesis e Negação, de 1984), por exemplo, apesar do modo singular como cada uma delas objectiva os poderes insondáveis da imaginação ao articular-se com realidades específicas pré-existentes, com as suas práticas, lógicas e formas de significar próprias, é um empreendimento difícil de separar da participação activa que Fernando Gil teve nas equipas que realizaram a enciclopédia Einaudi, em Itália (cuja edição portuguesa dirigiu na INCM) e a enciclopédia Universalis, em França.

 

Quais os principais contributos da sua obra para pensarmos o nosso mundo?

Graças à sua obra, depressa nos damos conta do que há de irremediavelmente comum entre as «duas culturas» das humanidades e das ciências (para retomar a expressão de C.P. Snow), sem descuidar as artes e a música (leiam-se os seus escritos sobre Júlio Pomar, Menez, Jorge Martins, Eduardo Luiz, Gérard Castello- Lopes, mas também o livro sobre Schuman e Eichendorf, A quatro mãos, escrito com Mário Vieira de Carvalho). Em cada uma destas formas, que vão da ciência à música, passando pela literatura, a pintura e o direito, exprime-se um mesmo desejo de inteligibilidade. Entre elas tecem-se relações vivas, que permitem o conhecimento e a expressão, que constantemente tendem para a verdade. Também por isso, é uma obra que nos convida à interdisciplinaridade, não com o intuito de inventariar os saberes, mas como único modo de realmente aumentarmos a compreensão que temos de nós próprios e do mundo. Esse esforço para encontrar a unidade do sujeito humano na multiplicidade das suas realizações (um “transcendental impuro”, inseparável da historicidade e, por isso, pondo constantemente em diálogo o que há de perene no passado com o que há de possível no futuro) é ainda indissociável, no meu entender, do papel que Fernando Gil teve como conselheiro científico de Mário Soares, num momento de reabertura democrática ao resto do mundo, ou nos gabinetes de Mariano Gago, com vista à internacionalização e à modernização das universidades e dos centros de investigação em Portugal. Pela obra que realizou e pela vida que teve, pelos inúmeros projectos em que participou na Europa, no Brasil, nos Estados-Unidos, em África ou na Ásia (a fotografia do cartaz do Colóquio foi feita em Hong-Kong, depois de um período de trabalho na Academia Sínica de Taiwan), também é um convite ao cosmopolitismo, à liberdade e ao entendimento entre culturas em torno do desejo de conhecer.

 

Fernando Gil era também um leitor ímpar de textos literários, nomeadamente de Luís de Camões e Sá de Miranda. Que novas perspectivas nos trouxe sobre a literatura renascentista?

De facto, em 1998, Fernando Gil e Helder Macedo publicaram uma importante reflexão sobre os temas da retrospecção, da visão e da profecia no Renascimento português. Viagens do Olhar, traduzido para inglês como The Travelling Eye, toma em consideração algumas das mais notáveis obras literárias deste período da História portuguesa que tiveram um papel na génese da crise da consciência europeia no período de transição do século XVII para o século das Luzes, ao instaurarem novas formas de relação consigo próprio e com os outros, questionando a identidade através de uma interrogação permanente daquilo que se mantém no exterior. Nesta obra, em que são lidos Camões, Bernardim Ribeiro, Sá de Miranda e António Vieira, Fernando Gil estende à literatura as suas hipóteses filosóficas sobre a evidência, a crença, a alucinação, a expectativa, chegando mesmo a dizer (no livro Acentos, o primeiro a ser re-editado pela INCM), que estes estudos podem servir de introdução ao seu Tratado. A originalidade das suas leituras, em diálogo muito atento com os estudos literários, deixa entender o que há de contemporâneo (porque perene) e de universal na literatura renascentista portuguesa, ao mesmo tempo que nos adverte (no caso de Camões) sobre os uso das obras daquela época para fins políticos que não se coadunam com a aspiração da poesia, da viagem, do encontro e do maravilhamento pela riqueza do mundo.

 

A reedição em 2026 da sua obra pela Imprensa Nacional - Casa da Moeda encontrará leitores substancialmente diferentes dos primeiros leitores?

A reedição das obras pela Imprensa Nacional - Casa da Moeda está a cargo de Maria Filomena Molder, Diogo Pires Aurélio, Adelino Cardoso e Manuel Silvério Marques, que melhor do que eu saberão como está orientado o projecto editorial. Pelo que depreendi da conversa com eles, o intuito é, precisamente, o de tornar acessíveis as obras (que já há muito esgotaram nas livrarias, tanto em Portugal como em França) a novos públicos, que as farão dialogar com circunstâncias diferentes daquelas do seu contexto de escrita. Creio, por isso, que a reedição da obra contará com leitores ainda mais capazes de se dar conta do seu âmbito e das suas aspirações à universalidade. O leitores contemporâneos, que podem livremente estabelecer diálogos culturais com o resto do mundo, mais facilmente desenvolverão afinidades com uma obra que sempre os nutriu e promoveu.

 

Texto: Isabel Araújo Branco.

 

Colóquio Internacional Fernando Gil