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Entrevista a Duarte Nuno Chaves
Os grandes desafios da museologia em 2026

 

«Periferias, desafios do trabalho em rede: entre o local e o global» será o tema do VIII Encontro de Boas Práticas Museológicas, que terá lugar entre 21 e 24 de outubro na Madeira, organizado pelo CHAM – Centro de Humanidades e pela Secretaria Regional de Turismo, Ambiente e Cultura / Direção Regional da Cultura da Madeira. Conversámos com Duarte Nuno Chaves, membro da Comissão Organizadora, para conhecer melhor a museologia e os desafios que hoje enfrenta.

 

De um modo geral, o que são «boas práticas» e «más práticas» museológicas?

É uma questão muito pertinente. Estes Encontros nasceram em 2017, numa parceria entre o CHAM e algumas autarquias da ilha de São Miguel, e começaram por ser uma plataforma de reflexão orientada para a superação de algumas dificuldades que estas instituições apresentavam, nomeadamente no âmbito das práticas de inventário. Praticamente nove anos após a realização do primeiro Encontro, em colaboração com a Câmara Municipal da Ribeira Grande (2017) é importante sublinhar que a distinção entre boas e más práticas não é um dado absoluto, depende frequentemente dos recursos disponíveis, do contexto geográfico e institucional, e da escala da instituição. No caso dos museus insulares, como os dos Açores ou da Madeira, algumas limitações decorrem de constrangimentos estruturais, como a insularidade, a escassez de recursos humanos especializados ou a pressão turística, que não resultam necessariamente de má gestão, mas que exigem respostas criativas e adaptadas ao contexto específico de cada território. É precisamente neste espaço de reflexão que iniciativas como os Encontros de Boas Práticas Museológicas assumem um papel relevante.

 

Espaços museológicos de diferentes zonas geográficas enfrentam desafios diferentes? Por exemplo, um museu nacional situado em Lisboa ou no Porto tem dificuldades diferentes de um espaço equivalente nos Açores ou na Madeira?

No seguimento da resposta anterior, julgo que as dificuldades enfrentadas por um museu nacional situado em Lisboa ou no Porto e por um museu regional situado nas nossas regiões autónomas são similares, guardadas as devidas diferenças de escala entre estas instituições. A grande diferença reside nos desafios impostos pelo território. Em primeiro lugar, a grande maioria dos museus insulares mantém uma forte ligação à história insular e atlântica, e essa dimensão geoestratégica tem uma presença significativa nas coleções destas instituições. Nos dias de hoje, os museus insulares, pelo menos os de tutela da administração pública regional e local, têm já a possibilidade de participar em diversas redes colaborativas, como a Rede Portuguesa de Museus. No caso específico dos Açores, existe ainda a Rede de Museus e Coleções Visitáveis dos Açores, dotada de legislação própria, situação que permite o intercambio entre instituições. Um dos grandes desafios é, a meu ver, a crescente pressão que o fenómeno turístico exerce sobre as instituições museológicas que tiveram um crescimento exponencial de visitantes nos últimos anos. No caso da Madeira, essa pressão tem já várias décadas de expressão; nos Açores, é relativamente recente, mas igualmente intensa, colocando exigências consideráveis a estas instituições, quer ao nível da manutenção, quer ao nível da disponibilidade de recursos humanos qualificados. A título de exemplo, refira-se o Museu do Pico: a ilha conta com uma população residente de 13 879 habitantes, segundo os Censos de 2021, tendo o Museu registado uma afluência próxima dos 80 mil visitantes em 2024, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística. Em suma, existem desafios significativos decorrentes de novos paradigmas, e a relação com a academia é, a meu ver, inequivocamente benéfica para repensar os nossos museus. Nesse sentido, o CHAM tem, certamente, uma palavra importante a dizer.

 

A chamada «inteligência artificial» pode dar bons contributos, mas, como tem vindo a ser provado em diversas áreas, constitui também uma ameaça ao pensamento crítico e à criatividade humana, entre outros. Como é visto este tipo de sistema informático pela museologia?

Essa é precisamente uma das nossas preocupações e este ano criamos um painel temático em que convidamos os especialistas a debater «Museologia e inteligência artificial: impactos e desafios». A relação entre a «inteligência artificial» e a museologia é, de facto, complexa e multifacetada, suscitando um debate crescente na comunidade museológica internacional, nomeadamente no seio do ICOM e das principais publicações académicas da área.

 

Um dos objectivos dos museus é envolver a comunidade e manter os hábitos de visita dos públicos mais jovens. Nos nossos dias, essa é uma missão fácil ou difícil de concretizar?

Trata-se de uma missão que, a meu ver, está longe de ser fácil de concretizar, mas que é tanto mais conseguida quanto maior for o empenho e a criatividade das equipas envolvidas. Nos últimos Encontros de Boas Práticas Museológicas, temos tido a preocupação de incluir um painel temático dedicado aos programas educativos dos museus, entendidos como pedras angulares da participação e da transformação social. Fazendo uma retrospetiva dos resultados desses debates, concluímos que o museu é, antes de mais, um espaço de democratização cultural, aberto a uma diversidade de públicos e promotor do diálogo através da mediação cultural. O envolvimento dos públicos mais jovens pressupõe um trabalho de raiz comunitária, no qual os profissionais dos museus são chamados a interagir com os vários agentes culturais e educadores presentes nas suas comunidades. O exercício da mediação cultural constitui, assim, uma forma privilegiada de salvaguardar a nossa identidade e o nosso património cultural para as gerações vindouras.

 

Estão a organizar o oitavo Encontro de Boas Práticas Museológicas. Qual o balanço das anteriores edições?

Ao longo deste percurso, os Encontros têm evidenciado a necessidade de consolidar uma plataforma de cooperação entre os museus do espaço biogeográfico da Macaronésia, que engloba os arquipélagos dos Açores, da Madeira, das Canárias e de Cabo Verde. Realizados em diferentes ilhas e contextos, nomeadamente em São Miguel (2017, 2018, 2019 e 2025) e na Terceira (2022), nos Açores, em Fuerteventura (2024), nas Canárias, e na Madeira (2023 e 2026) —, estes encontros refletem uma dinâmica crescente de diálogo e articulação institucional. Nas últimas décadas, a museologia nos arquipélagos atlânticos tem sido marcada por um esforço contínuo de aproximação e pela construção de redes de conhecimento capazes de ultrapassar os constrangimentos da insularidade. Neste contexto, no VI Encontro, realizado em Fuerteventura, foi proposta a operacionalização de uma Plataforma Colaborativa dos Museus da Macaronésia, orientada para a promoção da cooperação, da reflexão e da intervenção social, envolvendo instituições museológicas, universidades e comunidades. A concretização desta iniciativa apresenta, contudo, desafios decorrentes dos diferentes estádios de desenvolvimento dos vários arquipélagos. A ligação à academia e a produção teórica dela decorrente, através da parceria com a Universidade dos Açores, através do CHAM e da sua extensão à Universidade da Madeira, tem sido um fator determinante para o reforço do papel dos museus enquanto centros ativos de investigação científica. Importa ainda destacar a crescente adesão de participantes a estes Encontros, provenientes não apenas dos quatro arquipélagos da Macaronésia, mas também de Portugal continental e de Espanha.

 

Quais as novidades em relação a esta edição? Terá lugar na Madeira...

Este ano, o Encontro regressa à ilha da Madeira, onde já havia sido realizado em 2023, decorrendo entre 21 e 24 de outubro, numa organização conjunta entre a Secretaria Regional de Turismo, Ambiente e Cultura da Madeira, através da respetiva Direção Regional da Cultura, e o CHAM. Sob o tema «Periferias, desafios do trabalho em rede: entre o local e o global», esta edição propõe uma reflexão aprofundada sobre a prática museológica contemporânea, com especial enfoque nas especificidades dos territórios arquipelágicos e nos desafios enfrentados pelas periferias no contexto global. O encontro será estruturado em torno de painéis temáticos dedicados a questões como a preservação do património em contextos de desastre, o impacto da inteligência artificial nos museus, a participação dos públicos jovens e a construção de identidades, bem como questões estruturais ligadas à gestão de coleções, museografia e musealização do património imaterial. O objetivo é reforçar a importância do trabalho colaborativo e em rede, reunindo profissionais das áreas do património e da museologia para debater os principais desafios do setor. Em simultâneo, será publicada a obra Desafios e Perspetivas de uma Museologia Insular e Atlântica, editada na sequência dos Encontros de Boas Práticas Museológicas, reunindo reflexões de académicos e profissionais da museologia. Para finalizar, convido todos os interessados a submeter propostas de comunicação até ao próximo dia 31 de maio, através do sítio web do CHAM, onde se encontra disponível a chamada de comunicações com toda a informação necessária.

 

Texto: Isabel Araújo Branco.

 

VIII Encontro de Boas Práticas Museológicas «Periferias, desafios do trabalho em rede: entre o local e o global»