Encontros 28.06.2022, 05.07.2022 e 12.07.2022
Vídeo-Cinema-Infinito, por Fábio Noronha (UNESPAR)
15h00 | Canal de YouTube CHAM

 

O objectivo das três conferências é reflectir sobre como os aparelhos modelam nossos corpos, tendo em vista a aceleração da mediação computacional e o comportamento uniformizado exigido por algumas das redes de computadores, aplicativos e plataformas. O YouTube, como caso exemplar, merecerá atenção: é uma corporação - ou objecto técnico – capaz de transportar conteúdos distintos e agregados, e implementá-los nos objectos técnicos concretos que nos cercam, como são as diversas formas de computador e rede sociotécnica. A hipótese é de que noções de montagem, como estruturas narrativas, organizariam as sequências de vídeo e áudio do canal em uma espécie de vídeo-cinema de algoritmo. com formas de articulação menos evidentes do que tradicionais associações por conteúdo. Tais estruturas narrativas variam, ocorrem no tempo, dimensionam-se pela geografia, posição política; operam na estratificação das classes, hierarquização das raças, qualificação dos gêneros. A articulação mesma, entre o objecto, o corpo manipulador e o ambiente, pode facilmente ser o produto da comercialização de dados. Extratos seleccionados dos livros de Simondon, L’Invention dans les techniques – Cours et conférences e Du mode d’existence des objets techniques, assim como da entrevista Entretien sur la mécanologie, entre ele e Jean Le Moyne, constituem um espelho para vermos o funcionamento dos aparelhos actuais, sejam os objectos concretos que colocamos em nossos bolsos, sejam as grandes corporações, como o YouTube.

Encontro - 28/06: Narrativa para um possível vídeo-cinema infinito: apresentação da pesquisa de pós-doutoramento

https://youtu.be/_JlG6gIQqzU

 

Pergunto-me se a montagem – e, com ela, uma certa noção de vídeo-cinema não formalista – poderia ser implementada por variantes dos protocolos actuais que viabilizam o compartilhamento massivo de conteúdos audiovisuais, a partir de buscas ideologicamente personalizadas: os algoritmos tratariam das afinidades dos assuntos e também da coerência das montagens. A hipótese é de que a emergência de um vídeo-cinema autônomo imprimiria na cadência de vídeos um tipo de vocabulário audiovisual normativo que, paulatinamente, adequaria quem está diante da tela em categorias de acoplagem ainda mais involuntárias e blindadas por universos narrativos não divergentes. Pois, o vídeo-cinema de YouTube não seria esvaziado dos respectivos pesos políticos oriundos dos diversos conteúdos disseminados pelos milhões de canais hospedados pelo Google. A abrangência desta pesquisa é relativa ao contexto a que se dirige, seja no trato da propagação do particular dos processos artísticos e/ou da generalização das teorias. Os processos artísticos de coleta de material envolvidos na realização performance QigonTube, mediada por objetos tecnológicos distintos, orientaram o sentido da pesquisa, ao recolocar a noção de coincidências provocadas, desenvolvida inicialmente no doutorado.

Encontro - 05/07: A montagem narrativa do YouTube: a concretização do objeto técnico e objetificação de quem que está diante da tela

https://youtu.be/vJnExcog3wI

 

Os espaços de convívio dos corpos são redimensionados pelas contingências das limitações tecnológicas e interativas dos aparelhos. Elas variam muito, ocorrem no tempo, dimensionam-se pela geografia, posição política, operam na estratificação das classes, hierarquização das raças, qualificação dos gêneros. Mesmo com a pandemia, que teria a força de requalificar uniformemente os espaços e os corpos, as tecnologias de comunicação e informáticas não cessam de lembrar as diferentes condições da mediação técnica. Com diferenças sociais enormes, por todos os cantos da terra, é de se esperar diferenças importantes na experiência de adaptação aos novos circuitos de afeto não presenciais. Em um país como o Brasil, que chegou a uma média diária de quatro mil óbitos um ano após o início da pandemia, o uso dos aparelhos cria um circuito de afetos diferente, por exemplo, daquele de países sem novos casos por meses. A pandemia acelerou a mediação de alguns aparelhos, com o acréscimo do número de horas de exposição à luz dos monitores, com a uniformização da posição e interface de trabalho, normalmente no mesmo ambiente, com a repetição dos movimentos decorrentes do uso de mouse e teclado, etc. Um tipo de repetição operacional cansativa, que uniformiza os comportamentos de quem lhe está submetido.

Encontro - 12/07: O YouTube e a modelagem dos corpos e das sociedades em que incide: usuário e sua singularidade

https://youtu.be/6Y31a1ZgKvY

 

A uniformização temática trazida como output das buscas feitas na plataforma de compartilhamento YouTube foi notável no início do seu funcionamento. Actualmente não é mais assim, ela maneja os conteúdos de maneira mais complexa, comercialmente orientada, aproximando temas e temporalidades aparentemente distintos. Para funcionar assim o Youtube coleta muitas informações sobre os usuários que acessam seus canais, sejam eles inscritos ou não. Internamente, há uma espécie de gestão (ou digestão) de tudo o que “encosta” na plataforma: do tempo de permanência diante da tela, dos horários, das frequências, das palavras-chave. A lista de informações colectadas é imensa, com o objectivo de saber “quem vem lá”. Os aparelhos atuais devem ser visíveis e monitoráveis, de maneira geral é assim que saem da fábrica; compulsoriamente fornecem suas identidades digitais – marca, modelo, ano de fabricação, etc. Quem os usa é submetido a este duplo crivo: as suas identidades e as identificações dos aparelhos são vinculadas e sincronizadas. Aparelhos informam outros aparelhos. Computadores de épocas distintas acessam as redes actuais, com configurações específicas. São desenhados para funcionar em rede, em micro e macroescalas; da reduzida rede doméstica aos bilhões de usuários conectados nas diversas redes sociais. Público e privado são confundidos deliberadamente para formar o que chamei de redes socio-psico-tecno-patas.

Professor na Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR), no mestrado em Cinema e Artes do Vídeo (PPG-CINEAV) e na graduação em Artes Visuais (BAV), onde criou e coordenou Laboratório Experimental de Vídeo (L.EX.VIDEO). Pós-doutorando na linha de Processos artísticos contemporâneos do Programa de pós-graduação em artes visuais, no Centro de Artes da Universidade Estadual de Santa Catarina (PPGAV/CEART/UDESC). Mestre e Doutor em Poéticas Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGAV/UFRGS). Participou de exposições nas principais instituições brasileiras, tais como Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e de São Paulo, no MASP em São Paulo, no MON em Curitiba. Desde os anos 2000 distribui seus trabalhos gratuitamente na Internet. Desde 2015 coordena o projecto independente de residência artística Oi_Monstro @monstro_res. Ver: https://leglessspider.wordpress.com/

 

Organização

CHAM / NOVA FCSH

Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR)

Programa de Pós-graduação em cinema e Artes do Vídeo (PPG-CINEAV)

 

Cartaz (.pdf)