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Colóquio22.04.2026 a 24.04.2026
Literatura e imaginário vegetal: modelos teóricos, formas poéticas e processos de composição
NOVA FCSH (Avenida de Berna)

 

São inúmeras as metáforas vegetais que povoam o imaginário ocidental, sustentando um pensamento complexo e matizado, revelador da forma como nos relacionamos com o mundo. A proliferação de imagens como raiz, árvore, semente, fruto, crescimento, ramificações, enxertia, entre outras, atesta a impregnação antiga e difusa das plantas nos mais diversos domínios do saber – incluindo na literatura. Com efeito, estas imagens têm operado, no campo literário, como modelos de pensamento, através dos quais se articulam forças e valores heterogéneos, produtores de formas, sentidos e possibilidades infinitas. No seu «Prelúdio» a La Fraîcheur de l'herbe. Histoire d'une gamme d'émotions (Paris : Fayard, 2018), o historiador Alain Corbin recorda-nos como, de Plínio aos autores contemporâneos (pensamos nas divagações do senhor Palomar, na obra homónima de Italo Calvino, que descobre no «prado infinito» um modelo do universo «inúmerável, instável nos seus confins, que se abre dentro de si a outros universos»), passando por Ronsard, Rousseau e o seu fascínio pela herborisation (Rêveries du promeneur solitaire), os poetas românticos ou os precursores do modernismo como Withman (Leaves of Grass), muitos escritores se sentiram atraídos pelas imagens herbáceas, evocando o choque (material, cognitivo e poético) provocado pela simples visão da erva. Tanto o idílio como a poesia pastoril desde a Antiguidade ou a Reverdie cultivada na Idade Média constituem modalizações líricas em que o vegetal se torna princípio generativo e estruturante de formas poéticas específicas. Para traduzir um modo singular de organização da matéria narrativa, uma organização arborescente, a Idade Média inventa um novo e igualmente revelador termo, o de branche («ramo»), que surge pela primeira vez no Roman de Renart para designar uma das partes (a branche IV, que conta as desventuras do lobo Ysengrin, preso no fundo de um poço depois de cair na ardilosa estratégia retórica da raposa) de uma narrativa caleidoscópica por excelência.

 

No seu ensaio intitulado A Metamorfose das plantas (Versuch die Metamorphose der Pflanzen zu erklären,1790), Goethe propunha, também ele, uma visão orgânica, dinâmica e intuitiva do mundo vegetal, considerando que todas as partes da planta derivam das modificações sucessivas de uma forma arquetípica comum, que ele designa de “planta primordial” (Urpflanze). Assim, contrariando o pensamento científico mecanicista e classificatório da sua época, centrado em estruturas hierárquicas, lineares ou antropocêntricas, Goethe via a planta como um processo dinâmico de transformação contínua, instigador de uma multiplicidade proliferante, aberta e descentrada, antecipando assim o pensamento rizomático de Deleuze e Guattari em Mille Plateaux (1980). Nesta obra, os dois filósofos apresentam o conceito de rizoma como modelo de pensamento e de criação que imita o crescimento vegetal, feito a partir de conexões horizontais e múltiplas, traduzindo-se em narrativas fragmentadas, abertas e que se expandem por afinidade e contágio. De acordo com este modelo epistemológico, a literatura organiza-se por processos de germinação, ramificação e interdependência. O vegetal torna-se, assim, o operador de uma estética da relação. Autores como Édouard Glissant reforçam essa ideia ao defender uma poética da relação, que adota o rizoma como modelo de uma linguagem literária que deve ser dinâmica e incorporar a diversidade e a complexidade do mundo, valorizando a multiplicidade e a interconexão.

 

Assim, pensar a literatura a partir das plantas e dos sistemas vegetais, é adotar a lógica do vegetal como princípio generativo da própria criação literária. Nesse sentido, o vegetal não surge apenas, independentemente do importante valor poético, cultural e simbólico que assume nestes contextos, como simples tema ou motivo integrando o processo dinâmico de representação, mas antes como modelo (imagético e conceptual) criador (gerador) de novos modos de pensar o fenómeno literário e princípio de composição/organização da matéria literária em si. Com efeito, ao evocar o crescimento orgânico, a multiplicação, a transformação ou a conexão, o imaginário vegetal oferece à reflexão ocidental uma gramática viva da metamorfose e da relação, moldando a forma como pensamos, escrevemos e representamos o fenómeno literário.

 

O vegetal torna-se, assim, uma filosofia (pensamos na obra coletiva Philosophie du végétal publicada em 2019 pela editora Vrin), uma autêntica forma de pensamento — designada por Michael Marder de Plant-thinking (2013) — e propõe uma episteme alternativa à racionalidade ocidental, marcada por centralidades, hierarquias e binarismos, bem como por um antropomorfismo (já profundamente desconstruído por Julien Offray de La Mettrie no seu L’Homme-Plante publicado em 1748 em Potsdam) e um universalismo igualmente redutores. Entende-se, pois, o interesse crescente da teoria e crítica literárias pela questão do vegetal na literatura. Autores e teóricos como Michael Marder, Eduardo Kohn, Monica Gagliano, Emanuele Coccia, Rachel Bouvet, Stéphanie Posthumus, Patrícia Vieira, Jacques Tassin, entre outros, propõem uma nova – ou renovada - forma de pensar as plantas, reposicionando-as, no pensamento contemporâneo, como uma presença ativa, sujeitos éticos, ontológicos e epistemológicos, produtores de sentido.

 

Partindo deste quadro conceptual, pretende-se, neste colóquio, refletir sobre a possibilidade de pensar o vegetal não apenas como tema ou metáfora na literatura, mas como modelo epistemológico e formal que influencia diretamente os modos de compor e imaginar o literário. O objetivo é promover o diálogo entre questionamentos teóricos e práticas compositivas / artísticas, a partir de uma abordagem eminentemente plural e interdisciplinar.

 

 

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