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Entrevista a Dominique Faria
«A ilha é uma figura com uma enorme plasticidade simbólica»

 

«Pensar a ilha como encruzilhada permite deslocar o foco da imagem de marginalidade e periferia para uma análise das ilhas enquanto espaços de circulação, conflito e recomposição cultural», afirma Dominique Faria, em entrevista, a propósito do II Colóquio «Literaturas e Culturas Insulares». A investigadora do CHAM – Centro de Humanidades conversa sobre os Island Studies, a desmistificação da ideia do «isolamento», as características das experiências insulares e as imagens e significado das ilhas na literatura. O colóquio terá lugar a 29 e 30 de Outubro na Universidade dos Açores e a chamada de trabalhos está aberta até 31 de Maio.

 

É frequente uma percepção equivocada sobre um suposto «isolamento» das sociedades insulares. A que conclusões vão chegando os Island Studies?

Um dos contributos centrais dos Island Studies tem sido a crítica sistemática da ideia do isolamento como única categoria definidora da insularidade. A persistência da imagem de periferia decorre, muitas vezes, de um olhar continental que tende a confundir descontinuidade geográfica com marginalidade. No entanto, muitas ilhas desempenharam — e continuam a desempenhar — funções estratégicas nas rotas comerciais, nas migrações, na logística militar ou no âmbito do turismo. Um dos propósitos deste colóquio é criar um espaço de reflexão que, sem negar as especificidades da condição insular, contribua para densificar e complexificar o pensamento sobre o que a insularidade implica, evitando tanto a romantização quanto a sua redução a uma condição de isolamento.

 

Quando falamos de diferentes ilhas (ou diferentes arquipélagos), encontramos mais pontos em comum ou mais aspectos diversificados no que diz respeito à insularidade?

Diria que encontramos ambas as dimensões, mas é importante evitar essencializações. Há elementos estruturais comuns, como a descontinuidade territorial, a presença do mar, a pequena dimensão ou até a maior exposição a riscos ambientais, que moldam certamente as experiências. No entanto, as experiências insulares variam muito em função de fatores como a História, a economia ou a geopolítica. Numa ilha atlântica europeia, num arquipélago das Caraíbas ou numa pequena ilha do Pacífico vivem-se realidades necessariamente diferentes.

 

A vida nas ilhas, contrariando uma possível tendência para a dispersão, permitirá um maior aprofundamento das relações humanas e do humano com a natureza?

Essa ideia faz parte de um imaginário recorrente, em que a ilha surge como espaço de autenticidade, coesão comunitária e harmonia com a natureza. Em certos contextos, sobretudo em comunidades pequenas, pode verificar-se essa tendência. No entanto, hoje em dia as ilhas participam plenamente nas dinâmicas da globalização, como o turismo massificado, a mobilidade internacional ou até a transformação tecnológica. O ritmo acelerado das sociedades contemporâneas também se faz sentir nos territórios insulares. A insularidade, por si só, não determina um modo de vida, mas pode criar condições específicas para formas particulares de relação com o território. A realização do II Coloquio «Literaturas e Culturas Insulares» na ilha de São Miguel permite, precisamente, que a reflexão teórica seja atravessada pela experiência situada do lugar, convidando os participantes a pensar a insularidade não apenas como conceito, mas como vivência específica.

 

E haverá uma maior preservação da memória colectiva nas ilhas?

Em certos contextos insulares, a concentração espacial e a continuidade geracional podem contribuir para uma maior valorização e preservação do património. Contudo, também aqui importa evitar generalizações. Basta pensarmos que muitas ilhas são espaços marcados por migrações, diásporas, deslocações forçadas e recomposições identitárias constantes. A preservação da memória convive, frequentemente, com processos de reinvenção cultural e identitária.

 

A literatura e as outras artes criadas por autores que vivem ou viveram em ilhas apresentam características próprias?

É certo que o espaço influencia a criação artística, mas essa influência não é linear. Em muitas literaturas insulares observamos recorrências como a tensão entre terra e mar, a experiência da partida e do regresso, a migração, a fronteira, a consciência do limite... Mas a ilha é uma figura com uma enorme plasticidade simbólica. E o imaginário insular não se circunscreve a autores nascidos ou residentes em ilhas. Pelo contrário, a ilha ocupa um lugar central na tradição literária e cultural ocidental. É essa diversidade de representações que motivou a criação do Doutoramento em Literaturas e Culturas Insulares da Universidade dos Açores, ao qual este colóquio está associado. Pensar a produção cultural a partir da categoria de insularidade permite fazer leituras comparativas e interdisciplinares que me parecem particularmente estimulantes.

 

As mudanças climáticas constituem uma ameaça real às populações humanas, animais e vegetais insulares? Como se pensa a questão nos Açores, por exemplo?

Penso que, nas ilhas, os impactos ambientais tendem a ser mais imediatamente perceptíveis, seja pela subida do nível do mar, pelo aumento da frequência de fenómenos meteorológicos extremos ou até pela pressão sobre os ecossistemas. Nos Açores, essa reflexão tem vindo a ocupar um papel cada vez mais central no debate público e académico. Paralelamente, a literatura e a cultura assumem um papel importante na tomada de consciência de todas essas questões.

 

O I Coloquio «Literaturas e Culturas Insulares» teve lugar em 2023. Quais os principais contributos do evento e dos seus participantes para os Island Studies?

O I Colóquio «Literaturas e Culturas Insulares» tinha por tema «Ilhas, identidades, alteridades» e permitiu-nos consolidar um espaço de diálogo interdisciplinar centrado nas literaturas e culturas insulares, reunindo cerca de 50 investigadores de diferentes geografias. O principal contributo talvez tenha sido essa criação de uma rede de investigação que pensa as ilhas não como casos isolados, mas como espaços interligados por dinâmicas históricas e culturais partilhadas.

 

A segunda edição do colóquio – que terá lugar em Outubro de 2026 – tem como tema «A ilha como encruzilhada: mobilidade, dominação e hibridismo». Porque optaram por estas questões específicas?

A escolha do tema reflecte o momento histórico que atravessamos. As ilhas voltam a ocupar posições estratégicas nas dinâmicas globais, nomeadamente devido às questões geopolíticas, ambientais, migratórias, turísticas... Pensar a ilha como encruzilhada permite deslocar o foco da imagem de marginalidade e periferia para uma análise das ilhas enquanto espaços de circulação, conflito e recomposição cultural.

 

Texto: Isabel Araújo Branco.

II Colóquio «Literaturas e Culturas Insulares»