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Entrevista a Francisco Caramelo
O papel dos viajantes e coleccionistas no conhecimento do Oriente

 

A Universidade NOVA de Lisboa acolhe o III Congresso «Antiguidades do Próximo Oriente e Egipto. Viajantes, pioneiros e coleccionistas dos séculos XVI-XX», entre 23 e 24 de Março. Para compreender melhor este universo, conversámos com Francisco Caramelo – Professor Catedrático da NOVA FCSH, Director da NOVA Cairo e investigador do CHAM – sobre as perspectivas dos viajantes em relação a estes territórios ao longo dos séculos, as suas origens e motivações e o impacto dos seus registos escritos e pictóricos. «Os viajantes corrigem, nalguns casos, a visão apriorística, quando confrontados com a materialidade dos vestígios arquitectónicos e até com uma nova percepção sobre as sociedades locais, o seu modo de vida e a sua religiosidade. Outros, porém, reinterpretam o que observam, procurando confirmar narrativas bíblicas e clássicas», explica Francisco Caramelo.

 

A perspectiva dos viajantes sobre o Próximo Oriente e o Egipto muda substancialmente entre os séculos XVI e XX? Quais as principais diferenças?

Na verdade, há aspectos que podemos caracterizar como de mudança significativa, mas há também factores de continuidade. Nos séculos XVI e XVII, e até antes, predominam as motivações religiosas, ou também uma observação que é consequência da concretização de interesses diplomáticos, comerciais ou até circunstanciais. Por exemplo, Nicolau de Orta Rebelo, oficial do Estado da Índia, regressa à Europa por via terrestre, a partir da Pérsia, por decidir não esperar pelas reparações necessárias no navio em que seguia viagem. Também Don García de Silva y Figueroa, que actua como diplomata na corte itinerante do Xá Abbas da Pérsia safávida. Esta observação empírica e directa é complementada por uma cultura bíblica, sobretudo vetero-testamentária e pela literatura clássica. É sustentada nessa bagagem cultural, na observação da materialidade da antiguidade, no olhar etnográfico e na continuidade de uma tradição oral, que se vai tecendo a recepção da antiguidade nesses séculos XVI e XVII. Já nos séculos XVIII e XIX acentua-se a tendência para uma descrição mais sistemática, cartográfica e científica. A expedição napoleónica e a Description de l’Égypte são um bom exemplo. O século XIX é o século em que são decifradas as principais escritas, como o egípcio hieroglífico ou o cuneiforme, em que consequentemente se revelam as literaturas de uma antiguidade mais remota, em que as primeiras escavações são efectuadas na região do actual Iraque, ainda que sem método científico, e em que surgem as colecções egípcias e mesopotâmicas nos principais museus, nomeadamente o Louvre e o British Museum. Como factor de continuidade está o que eu chamaria um orientalismo em duas fases, mas ambas correspondendo a um interesse pelo Oriente e a um sistema de conhecimento que alimenta um sistema de poder.

 

Quais as proveniências desses viajantes e quais os seus objectivos?

Os viajantes vinham de áreas geográficas como Itália, França, Inglaterra, Alemanha e, sobretudo nos séculos XVI e XVII, de Espanha e de Portugal, reflectindo as ambições políticas ou institucionais do tempo. Houve motivações políticas, diplomáticas e religiosas.

 

Quem foram os grandes pioneiros?

Há viajantes que eu destacaria nos séculos XVI e XVII, como por exemplo António Tenreiro, Pedro Teixeira, Nicolau de Orta Rebelo, Frei Gaspar de São Bernardino ou Don García de Silva y Figueroa. Já no século XIX, nomes como Johann Ludwig Burckhardt, Giovanni Battista Belzoni, Karl Richard Lepsius, no caso do Egipto, e Paul-Émile Botta e Austen Henry Layard, no caso da Mesopotâmia, foram muito importantes porque combinaram a observação, os primórdios da arqueologia e a publicação.

 

Que peças interessavam mais aos coleccionistas? E o que faziam para as obter?

Os coleccionistas estavam sobretudo interessados em peças que pudessem ser exibidas em museus ou alimentar colecções, como estátuas, baixos-relevos, sarcófagos, papiros, escaravelhos, objectos funerários e inscrições monumentais. Em particular no que se refere à Mesopotâmia, os monumentais lamassu, figuras híbridas que protegiam as entradas dos palácios e templos, mas também muitos baixos-relevos palaciais, selos cilíndricos e tabuinhas cuneiformes foram alvo do interesse sobretudo europeu, no século XIX. O contexto do século XIX e o domínio colonial facilitou essa transferência, à luz de valores e de práticas que hoje seriam consideradas ilícitos e ilegais.

 

O contacto directo com estes territórios contribui para uma mudança da perspectiva formada previamente pelos viajantes?

Eu diria que, sobretudo no contexto dos séculos XVI e XVII, cruzando a literatura clássica e a Bíblia com a observação directa, os viajantes corrigem, nalguns casos, a visão apriorística, quando confrontados com a materialidade dos vestígios arquitectónicos e até com uma nova percepção sobre as sociedades locais, o seu modo de vida e a sua religiosidade. Outros, porém, reinterpretam o que observam, procurando confirmar narrativas bíblicas e clássicas.

 

Qual a circulação dos seus registos escritos e de imagem e qual o seu impacto fora destes territórios?

Os relatos de viagem dos séculos XVI e XVII deram lugar, nos séculos seguintes, e em particular no século XIX, a livros impressos, gravuras, álbuns ilustrados, imprensa periódica, fotografia, sociedades, conferências, exposições e museus. O impacto foi muito significativo. Estas novas percepções e as respectivas narrativas recondicionaram a visão europeia e americana sobre o «Oriente».

 

O Congresso Internacional «Antiguidades do Próximo Oriente e Egipto. Viajantes, pioneiros e coleccionistas dos séculos XVI-XX» vai já na terceira edição. Quais os principais contributos das anteriores edições, nomeadamente nas redes de investigadores luso-espanholas?

A primeira edição teve lugar em Zamora, em 2019, e a segunda em Ourense, em 2023. O contributo mais visível das edições anteriores foi a possibilidade de um repositório hispano-português estável sobre viajantes, coleccionismo, pioneiros, instituições e recepção, a partir de trabalhos que foram publicados. No entanto, há muito a fazer. É preciso criar redes luso-espanholas e fomentar a circulação de investigadores entre Portugal e Espanha, assim como suscitar a colaboração, os projectos comuns e a publicação conjunta.

 

Texto: Isabel Araújo Branco.

 

III Congresso «Antiguidades do Próximo Oriente e Egipto. Viajantes, pioneiros e coleccionistas dos séculos XVI-XX»