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Projecto "WHALE-TWIN", liderado por Cristina Brito, conquista uma bolsa ERC Proof of Concept (PoC) 2026

 

 

O que contam os ossos de baleia escondidos nas paredes em Peniche?

 

Há ossos de baleia incorporados em paredes de antigas construções de Atouguia da Baleia, no concelho de Peniche. Estes vestígios materiais, que sobreviveram ao longo do tempo como parte da paisagem construída da região, guardam uma história ainda por desvendar: a relação entre as comunidades locais, o oceano e a actividade baleeira que marcou este território. Agora, um novo projecto do CHAM – NOVA FCSH vai transformar um destes ossos num objecto digital capaz de reunir, preservar e disponibilizar essa memória.

 

O projecto WHALE-TWIN: Whales in the Wall: A Scalable Cultural Digital Twin Infrastructure for Europe’s Ocean Heritage conquistou uma bolsa ERC Proof of Concept (PoC) 2026, no valor de 150 mil euros, com uma duração prevista de 18 meses (2027-2028). Liderado por Cristina Brito, investigadora do CHAM e responsável pelo projecto 4-Oceans, o WHALE-TWIN pretende demonstrar como as tecnologias digitais podem contribuir para a salvaguarda e valorização do património oceânico e cultural.

 

A investigação tem como ponto de partida um objecto aparentemente simples, um osso de baleia, para responder a uma questão mais ampla: como recuperar e tornar acessível o conhecimento que está escondido em vestígios do passado? O WHALE-TWIN irá criar um gémeo digital de um osso de baleia, uma representação virtual do objecto físico que integra diferentes camadas de informação, como dados históricos, arqueológicos, ambientais e culturais.

 

Pode imaginar-se um gémeo digital como uma espécie de “biografia digital em evolução” de um objecto: reúne a sua história, o local onde foi encontrado, as características, imagens, relações com outros elementos e novos dados que podem ser acrescentados ao longo do tempo. Um gémeo digital acompanha a “vida” de um objecto patrimonial, permitindo perceber não apenas o que é, mas também de onde vem, que histórias guarda e como se relaciona com o mundo à sua volta. Mais do que um arquivo digital, permite cruzar diferentes camadas de informação, gerar novo conhecimento e apoiar novas formas de investigação, preservação e comunicação do património, bem como contribuir para a tomada de decisão e para a definição de políticas públicas.

 

“O projecto 4-Oceans tem-se dedicado ao estudo da história da baleação em Portugal e no mundo; o caso da baleação medieval e moderna na Atouguia e em Peniche representa um caso de estudo histórico único em termos de contexto económico, cultural, ecológico e científico”, explica Cristina Brito. A investigadora acrescenta que o WHALE-TWIN permitirá testar “a digitalização e associação de diversas camadas de informação a objetos físicos, contribuindo para a recuperação de uma memória ecocultural local e para a preservação do património natural e cultural. Esses objectos são ossos de baleia embebidos na realidade histórica, no património e memória de Atouguia e Peniche.”

 

Como um osso de baleia se transforma num gémeo digital

 

A equipa irá recorrer a fotogrametria — um conjunto de técnicas que permite obter medições a partir de registos fotográficos e reconstruir digitalmente objectos em 3D — para digitalizar os objectos físicos e produzir um modelo tridimensional de um osso de baleia, sobre o qual já existe contexto urbano histórico e também informação ecológica, bem como da arquitetura associada. “O projecto poderá depois crescer de forma a incluir outros ossos e outras estruturas e até mesmo o urbanismo histórico da vila da Atouguia da Baleia, num formato digital”, adianta Cristina Brito. O resultado será disponibilizado através de uma plataforma digital interativa e de acesso aberto, permitindo que diferentes públicos explorem este património e o conhecimento associado. “Sabemos que alguns ossos de baleias estão incluídos em paredes, podendo ter tido uma função estrutural ou simbólica, mas ainda não temos essa informação em particular. É uma das questões mais pertinentes e faz parte da investigação que está a decorrer no projecto 4-Oceans e para a qual se espera que esta PoC possa também contribuir.”, refere Cristina Brito.

 

Mais do que criar uma réplica digital de um objecto, o objectivo é construir uma infraestrutura que possa ser aplicada a outros elementos do património oceânico. “O nosso WHALE-TWIN funciona como uma verdadeira prova de conceito, ou seja, um modelo de trabalho, testável e replicável na área das humanidades ambientais e das humanidades digitais.”, afirma a investigadora responsável.

 

A ideia é que um vestígio como um osso de baleia possa tornar-se um ponto de encontro entre diferentes áreas científicas: um historiador poderá explorar narrativas sobre a relação entre sociedades e oceanos; um ecólogo poderá estudar alterações na biodiversidade; um conservador poderá analisar riscos de degradação; e um educador poderá utilizar o modelo em contexto pedagógico. O gémeo digital transforma, assim, um objecto isolado num centro dinâmico de informação e conhecimento.

 

O WHALE-TWIN nasce do projecto 4-Oceans (2021–2027), vencedor de uma ERC Synergy Grant, dedicado ao estudo da importância da vida marinha para as sociedades humanas entre 100 a.C. e 1860 d.C.. A prova de conceito conta com a parceria essencial do Município de Peniche, detentor das colecções de ossos que servem de base ao projecto, bem como com a colaboração da Universidade do Minho, do CNANS – Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática, da empresa Iconictheory e do Bergen University Museum.

 

Esta é a primeira ERC Proof of Concept da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – NOVA FCSH e a primeira da Universidade NOVA de Lisboa fora das áreas de Química, Ciências da Vida e Física/Engenharia, reforçando o papel das Humanidades na inovação e na criação de novas formas de compreender e proteger o património dos oceanos.

 

A equipa do WHALE-TWIN, liderada por Cristina Brito (CHAM – NOVA FCSH), integra também as investigadoras do CHAM – NOVA FCSH Nina Vieira, Carla Vieira, Catarina Garcia e Mafalda Pacheco, bem como o investigador do IHC – NOVA FCSH Daniel Alves e o investigador do IEM – NOVA FCSH Rui Venâncio.